
A maternidade transforma tudo. O corpo, a rotina, as prioridades, os sonhos. E, muitas vezes, também transforma a forma como uma mulher se enxerga, até chegar ao ponto em que ela some dentro do próprio papel.
Quando um bebê nasce, nasce também uma mãe. Esse processo tem até nome na psicologia: matrescência, a transformação profunda, física e emocional, que uma mulher atravessa ao se tornar mãe. Essa transformação é real, necessária e linda. O problema começa quando ela apaga tudo o mais.
É comum ouvir frases como "minha vida são meus filhos" ditas com muito orgulho. E há amor genuíno nisso. Mas há também, muitas vezes, um apagamento silencioso que ninguém questiona, porque parece bonito, parece certo, parece o que se espera. Com o tempo, algumas mulheres percebem que não sabem mais do que gostam fora do que os filhos gostam, sentem culpa ao fazer algo só para si, não se lembram do que faziam antes de ser mães. Isso não é fraqueza. É o resultado de anos colocando a própria identidade em segundo plano.
Psicologicamente, ter uma identidade própria, além dos papéis que desempenhamo, é um fator de proteção para a saúde mental. Pessoas que se definem apenas por um papel ficam mais vulneráveis quando esse papel muda ou é questionado. A mulher que só sabe ser mãe pode sentir vazio, perda de propósito e até depressão quando os filhos crescem e ganham independência. Não porque a maternidade acabou, mas porque ela nunca cultivou outras partes de si mesma.
Cuidar da sua identidade é cuidar dos seus filhos. Uma mãe que se conhece, que tem limites, que sabe o que sente, é uma mãe mais presente e mais saudável emocionalmente.
Reencontrar-se não significa abandonar a maternidade. Significa expandi-la. Perguntas simples podem abrir esse caminho: o que eu gostava de fazer antes de ser mãe? O que me faz sentir viva, fora do meu papel de cuidadora? Quais são os meus sonhos? Não é preciso ter respostas imediatas. Só perceber que essas perguntas existem já é um começo.
O espaço terapêutico pode ser, para muitas mães, o único lugar onde alguém pergunta "e você, como está?", e a resposta não precisa envolver filho nenhum. Um espaço para revisitar quem você era, descobrir quem você é hoje e construir, com calma, quem você quer ser.
Ser mãe é um dos papéis mais bonitos da vida. Mas você é muito mais do que um papel.
Geziany Oliveira
Psicóloga - CRP 16/12307
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