top of page

Recomeçar longe de casa: a viagem que é também interior

19 de set. de 2025

Psicóloga Andreza Fonseca Lima -CRP 11/23449

Psicologia
Terappia Logo

Mudar-se para outro país é, antes de tudo, uma viagem interior. Cada passo fora do território conhecido é também um passo para dentro de si — e nem sempre sabemos o que vamos encontrar. Para quem deixa o Brasil, não se trata apenas de atravessar oceanos, mas de atravessar memórias, afetos e identidades que carregamos como bagagem silenciosa.

O estrangeiro convive com a sensação de flutuar entre mundos. Há a terra natal, sempre presente em lembranças, cheiros, músicas, sotaques; e há o novo país, que exige adaptação, paciência, coragem. Esse limiar entre o conhecido e o desconhecido é fértil, mas também desafiador. Psicologicamente, nos confrontamos com a saudade — não só de pessoas, mas de lugares, hábitos, da sensação de pertencimento que nos definiu. É uma saudade que pode ser silenciosa ou persistente, às vezes se manifestando em insônia, tristeza ou sensação de deslocamento.

Recomeçar longe de casa exige resiliência emocional. É preciso aprender a acolher a própria vulnerabilidade, a criar novos vínculos e a permitir-se sentir medo ou insegurança sem se julgar. A psicanálise nos lembra que o “lar” não é apenas geográfico: é também simbólico. É o espaço em que podemos nos sentir vistos, reconhecidos e seguros. Assim, construir esse novo lar exige atenção aos detalhes do cotidiano, pequenos rituais de cuidado, e a coragem de estabelecer novos vínculos que nutram a alma.

Migrar é se colocar em um estado permanente de transição. Cada interação com uma nova cultura, cada idioma aprendido, cada gesto de adaptação é também um confronto com partes de nós mesmos que estavam adormecidas. Percebemos fragilidades que antes não se manifestavam, mas também descobrimos forças inesperadas. A psique se reorganiza, como se fôssemos moldando um novo contorno do nosso próprio ser.

E, paradoxalmente, estar longe de casa também permite redescobrir-se. O estrangeiro é alguém que se reinventa constantemente, que aprende a negociar sua identidade entre diferentes culturas, e que encontra, no silêncio de suas reflexões, novas formas de ser e de pertencer. Cada conquista, por menor que seja — uma amizade construída, um espaço conquistado, um dia que passa sem o peso da saudade — é um lembrete de força, criatividade e adaptação.

É natural que, em alguns momentos, a solidão pareça maior que a própria coragem. Mas é nesse espaço que crescemos: no reconhecimento das próprias emoções, na aceitação da saudade, na prática de acolher a si mesmo e aos outros. O processo é lento, muitas vezes invisível, mas profundamente transformador.

Migrar é, acima de tudo, um ato de coragem. É aceitar a incerteza e abraçar a possibilidade de renascimento, mesmo em meio à saudade e à dificuldade. É permitir-se sentir que, embora longe, podemos construir um novo lar — dentro de nós e ao redor de nós — e que esse processo, ainda que cheio de desafios, nos aproxima de uma versão mais autêntica, resiliente e poética de nós mesmos.

Últimas publicações desse Terappeuta

bottom of page