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Redes sociais: entre o desejo e a culpa

Quem sou eu diante da cultura do cancelamento?

1 de out. de 2025

Geovanna Moreira Bastos

Psicologia
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A cultura do cancelamento é um reflexo das relações humanas, pois ela releva um aspecto essencial na vida social: ter outra pessoa como referência. Essa outra pessoa pode nos gerar sentimentos de admiração e inspiração, mas também pode evocar rejeição, crítica e ódio.

 

Hoje, vivemos em um tempo marcado por uma crescente intolerância ao diferente. A dificuldade em lidar com a alteridade — aquilo que não é igual a nós — tem afetado profundamente as relações humanas. Em vez de convivermos com a diversidade de opiniões, estilos de vida e modos de existir, vemos uma pressão cada vez maior para que todos sigam certos ideais rígidos. E é justamente nas redes sociais que esse movimento se mostra com maior força.

 

Assim como as massas escolhem um líder ou ideal a ser seguido, as redes sociais constroem a figura do influencer. Essa pessoa, que inicialmente ganha destaque e é elevada ao posto de referência para muitos, passa também a se tornar prisioneira da própria imagem. Para se manter nessa posição de prestígio, muitas vezes precisa esconder suas opiniões pessoais, evitar expor posições políticas ou religiosas, e se limitar a dizer apenas aquilo que acredita que seus seguidores desejam ouvir. Em outras palavras: o influencer acaba sendo menos alguém que influencia e mais alguém influenciado pelo olhar da multidão.

 

O lugar do influencer, visto de fora como um privilégio, pode ser também um espaço de encarceramento. Afinal, quando alguém ousa expressar-se de forma autêntica, revelando pensamentos e sentimentos que não agradam à maioria, o risco é alto: a pessoa pode ser “cancelada”, ou seja, sofrer um verdadeiro aniquilamento digital — exclusão, ataques, perda de seguidores e de contratos.

 

Para Lacan, existe um princípio fundamental: ceder do seu desejo pode custar muito caro, até mesmo levar à depressão. Ao mesmo tempo, sustentar o desejo — ou seja, ser fiel a si mesmo — também tem um preço. O poeta Charles Bukowski, em seu famoso texto Roll the dice, ilustra isso de forma contundente: seguir o próprio desejo pode significar perder amigos, ser abandonado e enfrentar dificuldades financeiras.

 

No entanto, apesar das dificuldades, há um lado positivo em sustentar o próprio desejo. Sustentar o desejo, mesmo diante das consequências, traz consigo algo de inestimável: a possibilidade de viver em paz consigo mesmo, de “deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo todas as noites”. Esse é um ganho que não pode ser medido em números de curtidas, seguidores ou aprovações externas.

 

No fundo, o que vemos tanto nas redes sociais quanto na clínica psicanalítica é a mesma questão: a culpa de trair o próprio desejo. Essa culpa, tão frequente e tão dolorosa, atravessa diferentes formas de sofrimento psíquico. E, talvez, seja ela um dos maiores efeitos silenciosos da cultura do cancelamento: não apenas o medo de ser punido pelo Outro, mas o mal-estar íntimo de abrir mão de quem se é para corresponder ao olhar da multidão. A psicoterapia é um espaço seguro, sigiloso e sem julgamento em que o paciente pode falar e entender os seus desejos e o que fazer com relação a eles.

 

 

 

 

Geovanna Moreira Bastos | Psicóloga e psicanalista - CRP 01/30116

Meu perfil no Terappia: www.terappia.com.br/psi/Geovanna-Moreira-Bastos

 

 

 

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