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Reflexões sobre o cansaço contemporâneo

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31 de jul. de 2026

Pedro Ivo Rossi Pereira

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Autocuidado

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O cansaço é um tema recorrente na clínica. Não foi por acaso que Byung-Chul Han entitulou um dos livros de sua série de "Sociedade do Cansaço". O cansaço parece ser a palavra que reflete com mais precisão o sofrimento atual.

 

Durante muito tempo, acreditou-se que o sofrimento era produzido principalmente pela repressão externa: normas rígidas, proibições e limites impostos de fora para dentro. Hoje, porém, parece que a lógica mudou. Não somos apenas governados por ordens externas, somos convidados a administrar continuamente nós mesmos.

 

Precisamos ser produtivos, saudáveis, felizes, criativos, empreendedores de nós mesmos. Cada aspecto da vida torna-se um projeto de aperfeiçoamento permanente, nunca está bom, podemos ser sempre melhores que ontem. Como chama a atenção o filósofo Byung-Chul Han, nossa cultura passou da sociedade disciplinar para a do desempenho, na qual nos tornamos nossos próprios chefes.

 

Aparentemente isso aparece como uma forma de liberdade. Afinal, ninguém nos obriga explicitamente a nada. Mas essa liberdade carrega um paradoxo: quando acreditmos que tudo depende exclusivamente de nós, qualquer revés, qualquer fracasso passa a ser vivido como culpa. Nos tornamos nossos próprios patrões mas também nossos empregados.

 

Esse movimento também aparece na lógica de consumo atual. O mercado oferece incessantemente objetos, substâncias, aplicativos, métodos e técnicas que prometem aumentar nossa performance, eliminar as falhas humanas ou aliviar o mal-estar de maneira direta. Nos tornamos gestores de nós mesmos, como se fosse possível ser autosuficiente e abdicar da presença das outras pessoas.

 

Nesse cenário, o cansaço deixa de ser apenas uma consequência do excesso de trabalho. Ele revela justamente os efeitos de uma forma de vida na qual nunca parece suficiente aquilo que fazemos ou aquilo que somos. Sempre é possível produzir mais, consumir mais, otimizar mais, melhorar mais.

 

Em uma época que nos exige gerir continuamente a nós mesmos, talvez o gesto mais subversivo seja abrir um espaço onde não seja preciso performar. Um espaç em que seja possível falar, hesitar, reconhecer os próprios limites em vez de permanecer submetido a um imperativo de fazer sempre mais, sem cessar. O limite pode ser extremamente libertador.

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Romildo Santos da Mota

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