
Na resenha, apresento o documentário “A Ponte”, de Eric Steel, que transforma a famosa Golden Gate – geralmente coadjuvante em grandes filmes – em protagonista, mas com um papel sombrio: o de cenário de suicídios. Desde 1937, mais de 1.300 pessoas tiraram a própria vida ali, e Steel registrou, ao longo de 2004, 24 desses casos com câmeras posicionadas à distância.
Levanto o questionamento sobre o limite entre arte e sensacionalismo, já que o tema incomoda e levanta críticas antes mesmo de o filme ser visto. O diretor afirma que quis dar voz às vítimas, entendendo suas histórias, e não apenas expor suas mortes. Ele relaciona a origem do projeto às imagens das pessoas que se jogaram do World Trade Center no 11 de Setembro, o que o levou a refletir sobre quem pula para escapar de seu próprio “inferno pessoal”.
Steel entrevista amigos e familiares dos suicidas, tentando mostrar o que há por trás de decisões tão extremas. Para ele, o filme não traz respostas, mas provoca reflexões sobre um lado obscuro da mente humana e, principalmente, sobre como a sociedade ignora o tema do suicídio.
Também destaco que o diretor não se colocou de maneira indiferente: sempre que possível, acionava a polícia ao notar comportamentos suspeitos. Por fim, aponto a importância simbólica da Golden Gate nesse fenômeno: além da beleza e fácil acesso, muitos suicidas buscam ser vistos – e talvez salvos – no último segundo.
Nesse sentido, destaco algumas das histórias presentes no documentário, a fim de grifar momentos em que os sujeitos demonstraram sinais claros de que tentariam auto-extermínio. Como por exemplo, Gene, uma das pessoas que foi registrada neste documentário, afirmava constantemente que desejava morrer, descrevia formas em que ele poderia cometer autoextermínio e também, logo que a sua mãe faleceu ele fez mais uma “piada” sobre cometer autoextermínio.
Enquanto isso, Lisa, uma das outras pessoas gravadas, era esquizofrênica-paranoica, o que agrava seriamente as chances de cometer autoextermínio, segundo a família, Lisa sentia muito intensamente sobre os seus casos amorosos, e quando era rejeitada, sentia-se extremamente melancólica e triste. Possuía um histórico de internações em instituições psiquiátricas e apresentava distanciamento de amigos e dos seus familiares, curiosamente, o dia em que ela tomou a decisão de acabar com a própria vida, foi o dia em que ela ficou mais quieta. Indicando, provavelmente, uma instância de planejamento de como ocorreria o seu último dia.
Outro participante do documentário, Kevin, um sobrevivente de si mesmo, apresentava todos os sinais de alerta quanto ao suicídio: irritabilidade na escola e com os pais, extremação de sentimentos como “ninguém liga para mim”, “pouco importa o que vou fazer” e “nada tem sentido”. Além dos sintomas clássicos de depressão como humor rebaixado, fadiga, insônia e pensamento catastrófico e desesperançoso. Estava brigando com os pais e a sua depressão estava tão intensa que Kevin chegou a ter alucinações e delírios paranóides sobre insetos em sua cama. Assim, Kevin decidiu que tentaria se jogar da ponte, e se jogou. Planejou tudo até aquele momento, a rota do ônibus que iria pegar, a sua última refeição e até a necessidade de falar para o pai que iria para a escola, já pensando em faltar às aulas. Ele se jogou mas decidiu, após já ter pulado, que queria viver e milagrosamente, sobreviveu.





