
Tem uma frase que eu escuto muito, dita quase sempre baixinho, como quem confessa: “Eu amo meus filhos, mas estou exausta”.
Tem um detalhe nessa frase que me chama atenção: “Mas”, indicando uma oposição entre amar e estar cansada, como se essas experiências não pudessem compartilhar um mesmo espaço numa mulher.
Imagino que tenham te falado do amor da maternidade, e era verdade: Você nunca foi tão amada. Mas nunca se sentiu tão cansada.
Tem dias em que o único lugar onde você fica em silêncio é atrás da porta do banheiro. Por vezes, você só queria tomar um banho sozinha, sem pressa, e até isso parece uma façanha distante, porque logo você ouve “Mãe!”.
E por alguns segundos, você se pega pensando:
Quando foi a última vez que você apreciou uma refeição com calma ou assistiu a um seriado que gostava?
Quando foi a última vez que você pode estar consigo mesma?
E esses pensamentos podem chegar acompanhados por uma pontada de culpa. Afinal, aprendemos que a boa mãe é aquela que se doa por inteiro, que abre mão de si com um sorriso, que transforma o próprio esgotamento em prova de amor.
Aos poucos, fomos aprendendo a romantizar o sofrimento na maternidade, a chamar de instinto o que é sobrecarga, e a tratar o cansaço de uma mulher como se fosse a medida do tamanho do seu amor.
E talvez seja por isso que seja tão difícil dizer em voz alta: Admitir o cansaço parece, de algum jeito, admitir uma falha pessoal. Como se a exaustão fosse a prova viva de que você não está dando conta, de que seu amor não é o suficiente e de que, talvez em algum lugar, exista uma mãe melhor que faz tudo aquilo que você não consegue.
E aí, acontece uma coisa silenciosa, quase sem você perceber. A maternidade deixa de ser uma parte da sua vida e vai ocupando toda ela. Você vai deixando de se reconhecer como mulher, como pessoa, como alguém com vontades próprias, e passa a existir quase só na função de mãe.
Talvez você tenha até parado de ser chamada pelo seu nome. Virou a mãe de alguém. E foi se acostumando, devagar, sem ninguém avisar que ia custar isso. Não é que você ame menos. É que, no esforço de ser a mãe que esperam, você foi se apagando como mulher
Quando foi a última vez que te perguntaram como você estava e você respondeu? Não o “Tá tudo bem” automático. A resposta de verdade.
Será que você ainda se reconhece na mulher que você foi um dia?
Talvez essa pergunta não tenha uma resposta pronta. E talvez ela nem precise ter, por agora.
Mas tem uma coisa que eu queria te convidar a olhar: O que essa exaustão que você carrega calada comunica sobre a sua experiência e a forma como você tem vivido?
Esse cansaço todo não é um defeito seu. Mas um lembrete de que você também existe e que antes de ser mãe, você também é você.
Você ama seus filhos. Isso nunca esteve em jogo. O que fica como pergunta, e é só sua, é mais quieto: Será que amar alguém exige que você desapareça?
Ana Carolina Faria | CRP 04/84913 | @re_existirpsi





