
Se você está passando por um momento difícil, o CVV atende no 188, de graça e 24 horas por dia, e também por chat em cvv.org.br.
"Fale sobre isso" e "peça ajuda" são frases bem-intencionadas, e elas só funcionam quando existe alguém preparado para ouvir e um serviço disponível para acolher quem procura. Quando não existe, a mensagem acaba devolvendo para quem já está no limite uma responsabilidade que não é dele. Este texto reúne algumas crenças que circulam sobre suicídio, o que se sabe a respeito delas e por que a diferença entre uma coisa e outra tem consequência prática.
O que se diz sobre quem sofre
A crença de que quem fala não faz, e apenas quer chamar atenção, é provavelmente a mais difundida e a mais custosa. Muitas pessoas tentam comunicar de alguma forma o que estão vivendo, e falar em morrer, se despedir ou dizer que é um peso para os outros são comunicações, não encenação. Tratar isso como manipulação ensina a pessoa a se calar, e o silêncio subsequente costuma ser lido como melhora. Vale a ressalva na direção oposta: nem sempre há sinais visíveis, e a ausência deles não significa ausência de risco.
Também circula a ideia de que o suicídio seria fraqueza, covardia ou egoísmo. Não se trata de falta de coragem nem de falta de consideração com os outros. Em uma crise podem coexistir o desejo de morrer e o desejo de continuar vivendo, e a pessoa pode experimentar forte ambivalência e enxergar poucas alternativas diante de um sofrimento intenso. Julgar moralmente não protege ninguém, e pode afastar exatamente quem mais precisaria de ajuda, porque quem antecipa condenação não fala.
Há ainda a tendência de explicar o suicídio por uma causa única, em geral um diagnóstico. Transtornos mentais são fator de risco importante, mas não explicam sozinhos. Desemprego, endividamento, violência, racismo, discriminação, luto, dor crônica, solidão e falta de acesso a cuidado também compõem o quadro. Nenhum desses fatores, isoladamente, determina um desfecho, e a maioria das pessoas que vive essas situações não morre por suicídio. Prevenir exige olhar para as condições de vida, não apenas para o indivíduo.
Sobre a crise e sobre quem está por perto
O momento de maior risco costuma durar pouco, mesmo quando o sofrimento é longo. Isso não quer dizer que a crise passe sozinha ou que não seja preciso buscar ajuda. Quer dizer que atravessar esse intervalo com apoio, cuidado profissional e redução do acesso a meios letais pode manter a pessoa em segurança até que a intensidade diminua.
Estar perto ajuda, e ainda assim não substitui avaliação profissional. Escutar sem julgar pode fazer diferença real, mas quem está por perto não precisa avaliar nada sozinho nem carregar a situação. O papel mais concreto é oferecer companhia para procurar ajuda e, em caso de risco imediato, acionar o SAMU 192.
Se você perdeu alguém para o suicídio, uma observação necessária: nem sempre há sinais, nem toda morte era previsível, e a responsabilidade pelo desfecho não é de quem estava por perto. Reler a própria história procurando o que deveria ter sido percebido é uma das formas mais cruéis de luto, e ela não corresponde ao que se sabe sobre o tema. Se esse é o seu caso, procurar apoio também é cuidado.
Por que o modo de falar importa
Existe a ideia de que mostrar o suicídio em detalhes, em filmes e campanhas, conscientizaria as pessoas. Ocorre o contrário. Mostrar como aconteceu, exibir a cena, naturalizar ou romantizar está associado a aumento de casos. Histórias sobre crise atravessada e ajuda recebida, por outro lado, podem proteger. Conscientizar é falar sobre o sofrimento e sobre onde buscar ajuda, sem detalhar a morte.
Pela mesma razão, não é verdade que toda campanha de prevenção ajude e que o importante seja apenas falar sobre o assunto. Campanha mal feita pode não ajudar e, em alguns formatos, há indícios de efeito contrário. Quando a mensagem devolve o problema para o indivíduo, quem sofre conclui que a falha é sua e fica sem saber onde buscar ajuda. Falar de suicídio é delicado e demanda campanhas baseadas em evidências científicas.
Prevenir depende de mais do que boa vontade
Prevenir suicídio não é questão de força de vontade individual. Depende de serviços de saúde mental abertos e com equipe suficiente, de identificação precoce do risco, de acompanhamento garantido depois da crise e de profissionais formados para isso. Depende também de condições de vida que não adoeçam as pessoas. Nada disso se resolve com frases de incentivo, e é por isso que deslocar a conversa do plano individual para o plano coletivo não é desmobilização, é precisão.
Onde buscar ajuda
O CVV atende no 188, de graça e 24 horas por dia, também por chat e e-mail em cvv.org.br, lembrando que se trata de apoio emocional oferecido por voluntários, não de serviço clínico nem de emergência. A UBS do seu bairro é a porta de entrada do SUS e pode acolher e encaminhar. O CAPS da sua região oferece atendimento especializado e gratuito. Em caso de risco imediato, acione o SAMU 192 ou procure um pronto-socorro ou UPA.
Luísa Homsi Jorge Ferreira, psicóloga, CRP 06/233094.
Quem sou eu?

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Você sente que o mundo não é real ou que você não é real? Atendo adultos que vivenciam desrealização e despersonalização — experiências em que o mundo pode parecer estranho, irreal, artificial ou “como um sonho”, "como um filme", ou em que surge a sensação de não se sentir você mesma(o), de estranhar o próprio corpo, o reflexo no espelho ou a própria presença.
Quem passa por isso sabe racionalmente que o mundo é real e que continua sendo a mesma pessoa, mas a experiência subjetiva parece dizer outra coisa. É como viver algo que se sabe verdadeiro, mas que, por algum motivo, deixou de parecer real.
No cotidiano, costumamos dar como certas tanto a realidade do mundo quanto a sensação de sermos nós mesmos. Na desrealização e na despersonalização, essa familiaridade pode se abalar, tornando a experiência confusa, angustiante e, em alguns momentos, assustadora.
Podem surgir perguntas repetidas sobre a realidade, medo de ficar louca/o, dificuldade de sentir-se presente e uma solidão grande, porque os outros dificilmente conseguem compreender esse tipo de vivência.
Na psicoterapia, construiremos juntos um espaço seguro de compreensão e exploração das suas vivências — por exemplo, o que mudou na maneira de perceber a si mesma(o), o corpo, o mundo, as emoções, a interação com os outros e o cotidiano. Mais do que reduzir essa experiência a uma lista de sintomas, o processo terapêutico pode abrir caminhos para uma rearticulação existencial — isto é, para reconstruir referências a partir de sua própria bússola interna, fortalecer a sensação de presença e viver a realidade de forma mais estável e com mais sentido.
Também faço acompanhamento psicológico de adultos que convivem com epilepsia focal, inclusive temporal, e vivenciam desrealização, despersonalização ou outros fenômenos de estranhamento difíceis de descrever.
Minha clínica tem como fundamento a Abordagem Centrada na Pessoa, com contornos fenomenológico-existenciais. Sou graduada em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula, possuo especialização em Psicologia Clínica Fenomenológico-Existencial e atualmente estou em formação em Focalização (Focusing).
Fiz parte das equipes do Projeto Conexão Formativa e do Núcleo de Clínica Ampliada Fenomenológica Existencial (NUCAFE), colaborando com a organização e divulgação de cursos, especializações, simpósios e congressos em Abordagem Centrada na Pessoa e Fenomenologia-Existencial. Também integrei a equipe de divulgação da Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental da Universidade Santa Úrsula. Sou colaboradora do Grupo MãesSemnome, pioneiro de apoio ao luto materno, e da Clínica Social do C-FEN.
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