
Para a psicanálise, principalmente para Lacan, a cura não tem relação direta com a ideia de uma vida mais confortável ou de um bem-estar geral, pleno. Uma análise não promete e na realidade não existe nada que garanta uma vida sem conflitos, sofrimento ou falta, isso seria impossível. Afinal, não existe um objeto, uma conquista ou uma resposta capaz de nos satisfazar ou completar.
É justamente aí que noção de desejo se torna fundamental. Para Lacan, o desejo não é simplesmente aquilo que queremos conscientemente, mas aquilo que nos move em direção a vida a partir de uma falta que é constitutiva. Quando conseguimos assumir a falta, estamos sempre desejando algo novo, porque nada preenche totalmente esse vazio.
Talvez seja possível dizer que uma análise é bem sucedida quando podemos experimentar uma vida assumindo nossas escolhas, bancando o mal-estar que com elas vem, e assim ter uma vida com mais tempero, mais sal. Quando nos tornamos capazes de perceber e nos apropriar das complexidades, dos paradoxos e até mesmo dos impasses que fazem parte da existência. Isso não significa que o sofrimento não seja reduzido, na maioria das vezes quando isso acontece ele realmente diminui. Mas isso acontece não porque eliminamos esse vazio, essa falta, e sim porque podemos assumir de uma outra maneira, nossa condição precária e incompleta como seres humanos.
Nesse sentido, o sintoma se torna não um problema, mas uma marca própria. Ao longo do processo, podemos aprender que aquilo que nos faz sofrer não precisa nos limitar, nos inibir ou paralisar. Se tenho medo de falar em público, por exemplo, tremo, fico suado e a fala engasga. Muitas vezes isso pode estar relacionado com uma suposição de que temos que dar conta, que não podemos falhar ou tropeçar. Essa exigência pode se transformar em um imperativo que, paradoxalmente, nos paralisa.
Uma transformação possível não seria necessariamente deixar de tremer ou de sentir alguma ansiedade para sempre. Poderia ser, antes, conseguir se distanciar de imperativo de não falhar e justamente se permitir falhar. Quando conseguimos essa "permissão" de nós mesmos, é que algo se desloca. E aí, quando um tropeço acontecer, em vez de experimentar isso como uma catástrofe, poder rir ou até mesmo fazer uma piada de si mesmo, ou apenas saber que isso faz parte e que não existe um outro que é livre de tropeços. Ou ainda, um outro exemplo seria justamente compreender certas limitações e mudar a rota, fazer outras escolhas, inventar um outro caminho e poder bancar isso, assumir e se responsabilizar pelas nossas escolhas.
Talvez haja algo da cura aí que aponta para o desejo. Não em nos tornamos perfeitamente funcionais, porque isso é impossível e muitas vezes o sofrimento ocorre por acreditarmos nessa ilusão, mas em podermos nos relacionar de outra maneira com isso que manca, que tropeça, que falha e com isso, fazer algo novo.





