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O amor real e o amor ideal

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16 de out. de 2025

Geovanna Moreira Bastos

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Psicologia

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Desde cedo, somos atravessados por ideias, promessas e imagens sobre o que seria “amar e ser amado”. Criamos constelações inteiras em torno desse sentimento — desejando o amor, temendo perdê-lo, tentando entendê-lo. Mas o que, afinal, é o amor? Existe uma definição capaz de contê-lo por completo, sem deixar espaço para o mistério, o excesso ou a dúvida? Talvez não. E talvez seja justamente por isso que ele nos fascina tanto.

 

Muitas vezes, confundimos o amor com aquilo que o imaginário coletivo nos mostra: as histórias perfeitas dos filmes, as declarações nas redes sociais, os finais felizes que prometem plenitude. Mas o amor “real”, o amor vivido, é feito de encontros e desencontros, alegrias e frustrações. Ele não é apenas um sentimento, mas uma experiência que nos atravessa e transforma. A psicanálise, especialmente com Freud, propõe que olhemos para o amor com menos idealização e mais profundidade — aceitando que amar é também se deparar com a falta, com a perda e com a própria vulnerabilidade.

 

Freud nos lembrava que amar é, de certo modo, inevitável — e que tanto o excesso quanto a falta de amor podem nos adoecer. Amar nos expõe, nos faz sentir vivos, mas também nos faz sofrer. Essa ambiguidade não é um defeito do amor, mas parte essencial de sua natureza. Para a psicanálise, o amor nasce justamente da falta — daquilo que sentimos faltar em nós e que, inconscientemente, buscamos no outro. Por isso, amar é também perder: perder a imagem perfeita de nós mesmos que projetamos nas relações, perder o controle, perder a ilusão de completude.

 

Quando o amor é idealizado demais, ele corre o risco de se tornar frágil. Criamos fantasias sobre o outro — sobre o que ele é, o que ele deveria ser, o que esperamos que ele nos ofereça — e, inevitavelmente, a realidade se encarrega de frustrar essas expectativas. A decepção, nesse sentido, é inevitável, mas também é o que abre espaço para um amor mais verdadeiro. Porque só depois que a idealização cai é que podemos, de fato, ver o outro — não mais como um espelho do que falta em nós, mas como um ser real, com suas falhas, limites e diferenças.

 

É claro que viver sem nenhuma fantasia seria impossível. As fantasias também nos protegem e dão sentido à vida. Mas é importante perceber até que ponto elas nos ajudam a sustentar o vínculo e em que momento passam a nos aprisionar em expectativas irreais. Um relacionamento saudável talvez não seja aquele livre de conflitos, mas aquele em que duas pessoas conseguem continuar se escolhendo, mesmo diante das falhas e da incompletude que as habitam.

 

Amar, então, torna-se um ato de coragem. Coragem de ver o outro como ele é, de permanecer quando o encanto inicial se transforma, de reconstruir o laço depois da frustração. O amor duradouro não é aquele que nunca falha, mas o que sobrevive à falha. Amar é aceitar que nem o outro, nem nós, daremos conta de tudo — e, ainda assim, escolher continuar. Nesse movimento, o Eu precisa abrir espaço para o encontro, mesmo que isso traga o risco da dor. Porque recusar o amor para não sofrer é também uma forma de adoecer.

 

No fim, o amor possível é aquele que se constrói entre a falta e o desejo, entre o ideal e o real. É o amor que aprende a ser imperfeito, que reconhece as limitações humanas e, mesmo assim, se arrisca. A psicanálise nos convida justamente a isso: a deixar de buscar o amor ideal e a se abrir para o amor que é possível — aquele que se faz no cotidiano, nas imperfeições e nos recomeços. Porque é ali, no encontro entre o que falta em nós e o que falta no outro, que o amor verdadeiramente acontece.

 

 

Geovanna Moreira Bastos | Psicóloga e psicanalista - CRP 01/30116

Meu perfil no Terappia: www.terappia.com.br/psi/Geovanna-Moreira-Bastos

 

 

 

#terapia #psicologia #psicoterapia #amor #relacionamento

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