
A série"Adolescência"levantou muitos debates sobre o comportamento e o pensamento dos adolescentes nos dias atuais. Uma espécie de pânico parece tomar conta de pais e responsáveis, que passam a se perguntar que tipo de conteúdo seus filhos podem estar consumindo — ou mesmo produzindo — nas redes.
Assisti recentemente ao vídeo da youtuber Gabritta, intitulado"A crise emocional masculina: geração de incels?", no qual ela faz uma análise muito interessante sobre a crise emocional dos homens. Ela aborda o fato de que a maioria dos homens não falam sobre suas emoções, geralmente não se adaptam à psicoterapia e mantém relações majoritariamente superficiais. Esses fatores contribuem para que não desenvolvam repertório emocional para lidar com seus próprios sentimentos. Nesse cenário, “não sei” acaba sendo a resposta mais comum a qualquer pergunta que envolva o mundo interno.
Diante disso, continua a youtuber, alguns homens encontraram em grupos de internet um espaço de conversa, identificação e tentativa de organizar seus pensamentos.
Ela critica, então, o problema de obras como"Adolescência", produzidas em países ricos, onde casos de violência como os retratados são menos frequentes, e que acabam introduzindo umarelação causal simplista— como se dissesse:“meninos que frequentam grupos incels na internet são misóginos e violentos em potencial”.Gabritta contrapõe esse argumento ao contexto brasileiro, onde os casos de feminicídio ocorrem com uma frequência alarmante, e onde os agressores geralmente são homens desorganizados e desequilibrados emocionalmente e que não aceitam o fim de relacionamentos. Por aqui, não há uma conexão direta entre esses crimes e a atuação em grupos misóginos da internet.
O intento dela — com o qual eu concordo — não é desconsiderar o papel desses grupos como canais de propagação de ódio, nem defender que crianças e adolescentes não devam ser protegidos de discursos violentos (essa defesa é um direito e um dever constitucional). Mas, sim,chamar atenção para o cuidado necessário ao se estabelecer relações automáticas de causa e efeito, que acabam circunscrevendo problemas complexos de forma superficial, sem dar a eles o espaço e o tratamento adequados — algo similar ao que ocorre na chamada guerra às drogas.
Tentar atribuir a causa dessas barbaridades exclusivamente a grupos masculinos na internet éignorar uma das facetas do problema: os homens precisam ser cuidados. Se faz necessário encontrar formas de acessá-los, criar espaços de escuta e acolhimento onde suas questões possam ser elaboradas. Esse pode ser um caminho real para o enfrentamento do machismo, da lógica patriarcal e da violência de gênero, para a construção de masculinidades mais equilibradas e saudáveis.
O tema é complexo e polêmico — como são todos os temas sociais. Eles se expressam por meio de um emaranhado de causas e consequências, camadas de significações e massificações culturais. Por isso, exigem abordagens sensíveis e cuidadosas, que considerem essas complexidades — e não ser limitado a uma atribuição causal apresentada em uma série, sobre um caso em um país específico, filtrado pelas escolhas criativas e comerciais de uma equipe de produção.
A ideia desse texto não é tentar criar alguma verdade cristalizada, mas, antes, ampliar o debate. Se quiser, comente com suas ideias e impressões. Será ótimo ter sua visão.
Rodrigo Leite - Psicólogo - CRP 06/215645
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