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O que o filme “Homem-Aranha: Um Novo Dia” pode nos ensinar sobre aceitação e esquiva?

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13 de ago. de 2026

Luisa Homsi Jorge Ferreira

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Psicologia

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Este texto comenta elementos do enredo do filme.

Aceitação é provavelmente um dos conceitos mais distorcidos da Psicologia contemporânea. A palavra circula em legendas de rede social, em frases motivacionais e em conversas cotidianas até virar sinônimo de conformismo, de "aceite-se como você é" ou, no pior dos casos, de justificativa para não mudar nada. O sentido técnico do termo é outro, e um filme de super-herói recente oferece uma boa oportunidade para recuperá-lo.

Em "Homem-Aranha: Um Novo Dia", Peter Parker passa boa parte da história tentando conter algo que insiste em voltar. Quanto mais empurra aquilo para longe, mais espaço aquilo ocupa na vida dele. A cena é ficção e conta com efeitos especiais. O padrão, não.

A luta que consome antes de aparecer

Na literatura da Psicologia, o nome desse padrão é esquiva experiencial. O termo descreve a tentativa de controlar, evitar ou suprimir experiências internas indesejadas, como pensamentos, emoções, memórias, sensações corporais e impulsos, junto com a tentativa de alterar as situações que produzem essas experiências. A formulação foi proposta por Hayes, Wilson, Gifford, Follette e Strosahl em 1996, em um artigo que analisou a esquiva não como sintoma de um transtorno específico, mas como uma dimensão funcional presente em quadros muito diferentes entre si.

A esquiva experiencial não é irracional. Ela costuma funcionar no curto prazo, e é justamente por isso que se mantém. Adiar uma conversa difícil reduz a ansiedade agora. Manter-se ocupado o tempo todo impede que a tristeza apareça hoje. Beber, rolar a linha do tempo, dormir, trabalhar sem parar: cada uma dessas respostas entrega alívio imediato, e o alívio imediato é um reforçador poderoso.

O problema aparece no longo prazo. A vida vai encolhendo em torno daquilo que se tenta não sentir. Os lugares que não se frequenta mais, as conversas que não se tem, os projetos que não se inicia, tudo isso vai sendo excluído do repertório para que a experiência interna indesejada não seja acionada. No fim, a pessoa pode ter conseguido sentir menos, mas às custas de viver menos.

O que o cansaço estava dizendo

Há ainda um custo menos visível, e ele aparece com clareza na trajetória de Peter. Ele estava trabalhando sem parar e profundamente sozinho. O cansaço e a solidão que sentia não eram falhas de caráter nem fraqueza. Eram respostas a um contexto de vida que vinha se estreitando havia tempo.

Vale insistir nesse ponto, porque ele costuma ser mal formulado. Não se trata de dizer que as emoções "trazem mensagens", como se fossem entidades dotadas de sabedoria própria. O que sentimos não vem do nada e não vem de dentro no sentido de brotar espontaneamente. Aparece dentro de circunstâncias concretas, em relação com uma história de vida e com o que está acontecendo neste momento. Por isso prestar atenção no que se sente costuma apontar para o contexto, e não para um defeito pessoal. Quem passa o dia empurrando o que sente para longe perde exatamente essa pista, e continua tentando resolver internamente aquilo que talvez peça mudança na rotina, nos vínculos ou nas condições de trabalho.

Aceitar não é se conformar

Aqui mora a confusão mais comum, e ela tem origem em um problema de tradução. O termo técnico frequentemente usado na literatura é willingness, melhor vertido como disposição ou abertura do que como aceitação. Em português, "aceitação" carrega a conotação de resignar-se, de deixar como está, e é essa conotação que produz o mal-entendido.

Acolher o que se sente não é gostar daquilo, não é se conformar e não é abrir mão de mudar. A distinção decisiva é a seguinte: o que se acolhe são os eventos privados, isto é, pensamentos, emoções, memórias e sensações. O que se transforma é o comportamento. Aceitação e mudança não competem entre si, porque operam em domínios diferentes.

Isso significa que uma pessoa pode estar plenamente disposta a sentir a ansiedade que aparece ao pedir desculpas e, ao mesmo tempo, mudar radicalmente o padrão de responder com agressividade quando se sente ameaçada. A disposição é o que torna a mudança possível, não o que a dispensa. Vale lembrar que a Terapia de Aceitação e Compromisso é, apesar do nome, uma abordagem intensamente voltada à ação, e o compromisso ao qual ela se refere é o compromisso com ação orientada por valores.

O que não se aceita

Existe um limite que precisa ser dito com todas as letras, porque a omissão dele é o que transforma um conceito clínico em instrumento de silenciamento. Nada disso se aplica a violência, abuso, assédio ou condições de vida que podem e devem ser mudadas. Disposição não é tolerar o intolerável.

O objeto do acolhimento é a experiência interna que aparece enquanto a pessoa age, e nunca a circunstância opressiva em si. Quando alguém está em uma situação de risco, o trabalho psicológico não consiste em ajudá-la a suportar melhor aquilo, e sim em ampliar as condições para que a situação possa ser modificada ou interrompida.

A energia que volta a ficar disponível

No filme, é quando Peter para de gastar suas forças lutando contra si mesmo que ele consegue lutar por aquilo em que acredita. Fora da ficção acontece algo parecido, ainda que sem efeitos especiais e em um ritmo bem menos cinematográfico.

Convém marcar o que não se ganha nesse processo, porque a narrativa de super-herói pode sugerir exatamente o contrário. Não se ganha superpoder, não se ganha alívio garantido e não se ganha o desaparecimento do que incomoda. Aliás, quando alguém se dispõe a sentir algo com o objetivo de fazer aquilo passar, essa disposição volta a ser uma estratégia de controle e tende a falhar pelas mesmas razões pelas quais a supressão falha.

O que se ganha é flexibilidade. A energia que estava presa na luta interna fica disponível para agir na direção do que importa: os vínculos, o cuidado, o trabalho que faz sentido, aquilo que a pessoa quer que sua vida represente. É uma troca menos espetacular do que a do cinema, e consideravelmente mais útil.

Um trabalho que raramente se faz sozinho

Sair da luta contra o que se sente para agir na direção do que faz sentido é um processo lento, e costuma pedir apoio. A psicoterapia é um dos espaços em que esse trabalho pode acontecer, com alguém acompanhando o percurso e ajudando a identificar padrões que, de dentro, são difíceis de enxergar.

Referência

HAYES, S. C.; WILSON, K. G.; GIFFORD, E. V.; FOLLETTE, V. M.; STROSAHL, K. Experiential avoidance and behavioral disorders: a functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 64, n. 6, p. 1152-1168, 1996.

Luísa Homsi Jorge FerreiraPsicóloga | CRP 06/233094 Psicoterapia Analítico-Comportamental Atendimento online para adultos e idosos

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