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Perder é bom ou ruim?

treinando a sabedoria com a perda

10 de mar. de 2026

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Psicoeducação

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Elizabeth Bishop tem um poema que me marcou. Ele se chama “A arte de perder”. Nele, ela conta como perder faz parte da vida:

 

“A arte de perder não é nenhum mistério; tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.”

 

Você é criado para crescer, conquistar espaço, prover para si e para os outros, pagar contas, pagar pela comida e pelo remédio. A perda é tão injustiçada. Ninguém reconhece seu espaço na vida; ninguém presta homenagem ou agradece — que ironia, justo quando ganhamos. No entanto, ela ocupa tanto espaço quanto a vitória. Inclusive, é um dos pilares do sucesso no mundo e na narrativa capitalista. Há alguém que conquista e alguém que perde numa competição. Ou talvez você viva os dois lados, quando deixa alguns pratos cair para poder manter outros a salvo.

 

Perder, sofrer rejeição, pagar contas, não é nenhum “pecado”, nenhum desvio no caminho de uma vida plena:

 

“Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério.”

 

Talvez esse sofrimento dentro da gente — com a perda, com os desejos não realizados — esse diabinho se gastando na paciência de Deus, como diria João Guimarães Rosa, seja uma dimensão da vida que revele o amor como uma percepção com intenção: um conhecer e reconhecer a realidade. Reconhecer que a perda e o ganho sempre estão lado a lado pode ser um passo para a sabedoria; ver que a fruta da árvore que sustenta o ninho do passarinho caiu no chão e serviu de adubo, logo quando ele ia alimentar seus filhotes.

 

Eu, sinceramente, não vejo outro caminho a não ser reconhecer que tudo tem o seu tempo e o seu lugar certo para acontecer, desde que a semente seja plantada. Dessa forma, qualquer perda se torna vitória, qualquer elo de amigos leva à parceria certa, qualquer caminho que supostamente não tenha dado certo leva a um curso cheio de sentido, logo depois da suposta falta dele.

 

A perda realça o sabor da vitória. Seria o “perder” um inimigo? Ou seria ele o tempero que deixa a vida cada vez mais saborosa de experimentar? David Foster Wallace diz “Isto é água”, comparando o cotidiano com um oceano cósmico. Pode ser que esse tempero saia dessa mesma vida — a qual ele tempera.

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