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Por que eu tenho medo disso?

A angustia e o medo

15 de out. de 2025

Geovanna Moreira Bastos

Autoconhecimento
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O medo e a angústia fazem parte da experiência humana e, de certo modo, nos acompanham desde o nascimento. Em muitos momentos, o medo cumpre uma função de proteção: ele nos alerta diante de um perigo real, nos ajuda a reagir e a preservar a vida. Já a angústia é diferente. Ela surge sem um motivo claro, sem um objeto definido. É um aperto que vem de dentro, um incômodo que não sabemos nomear. Enquanto o medo aponta para algo que podemos identificar, a angústia revela algo mais profundo — um sinal de que há em nós algo que busca ser escutado.

 

A angustia pode se apresentar de muitas formas: como uma inquietação vaga, uma sensação de sufocamento, uma tensão no corpo ou uma expectativa de que algo ruim vai acontecer, mesmo que não saibamos o quê. Essa variedade mostra que a angústia não é apenas um sentimento de medo; é um fenômeno que toca o corpo, a mente e o modo como nos relacionamos com o mundo.

 

Nas línguas latinas, a própria palavra “angústia” vem de uma raiz que significa estreitamento, aperto. Isso explica por que tantas vezes ela é sentida no corpo: o peito aperta, o ar parece faltar, o mundo parece se fechar. Essa experiência corporal mostra que a angústia não se resolve apenas com pensamentos — ela se manifesta antes das palavras, como um aviso silencioso de que algo dentro de nós precisa ser reconhecido. A ansiedade, por sua vez, tende a se voltar mais para o futuro, para o desejo de que algo se resolva logo. Já a angústia, mais do que antecipar, nos coloca frente a frente com a sensação de falta e de desamparo.

 

Essa sensação de desamparo é algo que experimentamos desde muito cedo, ainda bebês. Quando sentimos fome, frio ou dor e não conseguimos sozinhos aliviar o mal-estar, dependemos de alguém que venha ao nosso encontro e nos acolha. Essa primeira experiência de cuidado cria um registro profundo em nossa memória. Mais tarde, diante de situações de perda, rejeição ou ameaça, esse sentimento de falta pode retornar sob a forma de angústia. Ela é, portanto, uma reação antiga, que revive algo da nossa condição mais primária: a de sermos seres que precisam do outro para se constituir.

 

O funcionamento da mente humana é como um sistema que busca, ao mesmo tempo, satisfazer o desejo e evitar o perigo. Muitas vezes, para alcançarmos aquilo que queremos, como conseguir um novo emprego, se relacionar amorosamente, expor suas ideias em uma reunião, é preciso estar sujeito para que a nossa tentativa de se satisfazer de errado. Buscar aquilo que desejamos é se permitir faltar, errar, estar desamparado. De um lado, há em nós o impulso de procurar o que nos completa; de outro, há o temor de reviver a dor e o desprazer. A angústia surge justamente nesse ponto de tensão entre o desejo e o medo. Ela aparece quando algo desperta nossa falta, mas também ameaça nossa estabilidade. Em outras palavras, a angústia marca o limite entre o que queremos e o que tememos, entre o movimento da vida e a necessidade de nos proteger.

 

Por isso, a angústia não deve ser vista apenas como um sintoma a ser eliminado, mas como um sinal importante — uma espécie de bússola interna. Ela indica que há algo em jogo na relação entre o sujeito e o mundo, algo que pede um novo posicionamento. Mesmo quando parece insuportável, a angústia pode revelar o que é mais verdadeiro em nós: aquilo que não conseguimos controlar, mas que insiste em se manifestar. Escutá-la é um passo fundamental para compreender o que está por trás de nossos medos e desejos.

 

Na psicoterapia, a angústia pode se transformar em um ponto de partida. Ao invés de tentar silenciá-la, o processo analítico convida o sujeito a escutá-la, a dar forma e sentido ao que antes se apresentava apenas como aperto e confusão. A fala, nesse contexto, tem o poder de transformar o afeto em palavra e o medo em compreensão. Assim, o que antes parecia uma ameaça pode se tornar um caminho de autoconhecimento. A angústia, longe de ser apenas um fardo, pode se tornar uma aliada — um convite para reencontrar o próprio desejo e para construir uma vida mais verdadeira consigo mesmo.

 

 

Geovanna Moreira Bastos | Psicóloga e psicanalista - CRP 01/30116

Meu perfil no Terappia: www.terappia.com.br/psi/Geovanna-Moreira-Bastos

 

 

 

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