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Por que pode ser tão difícil dizer “não”?

Quando o olhar do outro ocupa o lugar da própria vontade

6 de out. de 2026

Ana Carolina Faria Oliveira

00:00 / 01:04
Mulher

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Por que pode ser tão difícil dizer “não”?

 

Quantas vezes você já disse “sim” quando, por dentro, queria dizer “não”?

 

Talvez tenha aceitado um convite mesmo estando cansada. Assumido uma tarefa que não cabia na sua rotina. Deixado o próprio descanso para depois porque alguém precisava de você. Ou preferido engolir aquilo que gostaria de dizer para evitar uma discussão.

 

Às vezes, o “sim” sai tão rápido que a pergunta “mas eu quero fazer isso?” nem chega a aparecer.

Quando pensamos sobre a dificuldade de dizer “não”, é comum que a questão seja tratada como um problema individual: seria preciso aprender a colocar limites, ser mais firme ou desenvolver mais autoestima. Tudo isso pode ter sua importância. Mas existe uma pergunta anterior que também merece espaço: o que uma mulher imagina que está colocando em risco quando diz “não”?

 

Porque recusar um pedido nem sempre parece apenas recusar um pedido.

 

Pode existir o medo de ser considerada egoísta. Ingrata. Fria. Difícil. Uma filha ruim, uma parceira pouco compreensiva, uma amiga que não está presente quando precisam dela.

 

Perceba que essas palavras não falam exatamente sobre aquilo que foi solicitado. Elas parecem dizer alguma coisa sobre quem você é.

 

Isso não acontece por acaso. Ao longo da vida, muitas mulheres aprendem que estar disponíveis para os outros é uma qualidade importante. Desde cedo, meninas podem ser mais incentivadas a perceber as necessidades de quem está ao redor, cuidar, ajudar, compreender, evitar conflitos e demonstrar preocupação com os sentimentos alheios.

 

A pesquisadora Valeska Zanello utiliza o conceito de heterocentramento para pensar justamente esse processo: a aprendizagem de colocar os desejos, necessidades e expectativas dos outros no centro da própria atenção, muitas vezes antes dos próprios.

 

Isso aparece nas grandes decisões, mas também nas pequenas cenas do cotidiano. Na mulher que percebe imediatamente que alguém ficou desconfortável, mas demora para reconhecer o próprio incômodo. Naquela que sabe o que todos da casa precisam, mas tem dificuldade para responder quando alguém pergunta o que ela gostaria. Na que sente culpa quando descansa enquanto ainda existe alguma coisa que poderia estar fazendo por outra pessoa.

 

Não significa que cuidar dos outros seja um problema. O cuidado é parte importante das relações humanas. A questão começa a ficar diferente quando cuidar deixa de ser uma possibilidade e passa a funcionar quase como uma condição para sentir que se é uma pessoa boa, digna de carinho ou merecedora de aprovação.

 

Nesse contexto, dizer “não” pode adquirir um peso muito maior.

 

O risco imaginado não é apenas: “essa pessoa pode não gostar da minha resposta”. Pode ser algo próximo de: “o que essa pessoa vai pensar de mim se eu não corresponder ao que ela espera?”

 

É aqui que o olhar do outro pode se tornar uma referência importante para compreender a própria experiência. Nós não vivemos isolados. Somos vistos, avaliados, reconhecidos e interpretados por outras pessoas. O problema não está em considerar o outro, mas no que acontece quando esse olhar passa a ocupar tanto espaço que se torna difícil perceber a vida também a partir dos próprios parâmetros.

 

Antes de se perguntar “o que eu quero?”, talvez você já esteja calculando se alguém ficará chateado. Antes de reconhecer que está cansada, talvez esteja pensando em quem ficará sobrecarregado caso você pare. Antes de decidir se deseja continuar determinada relação, talvez esteja preocupada com o que significaria decepcionar alguém.

 

Pouco a pouco, a própria vontade pode começar a chegar sempre depois.

 

Por isso, talvez a questão não seja simplesmente aprender uma técnica para dizer “não”. Há situações em que vale investigar algo mais profundo: quando você precisa escolher, a partir de quais critérios costuma tomar suas decisões?

 

O que você deseja pesa tanto quanto aquilo que esperam de você? Quanto da sua energia é dedicada a antecipar necessidades, reações e julgamentos alheios? E o que acontece dentro de você quando aquilo que quer entra em conflito com aquilo que alguém espera?

 

Em psicoterapia, essas perguntas podem ajudar a compreender como uma pessoa foi construindo sua forma de estar nas relações. Não para transformar o cuidado em egoísmo ou ensinar alguém a ignorar os outros, mas para criar espaço para que a própria experiência também possa ser escutada.

 

Talvez aquilo que você quer não tenha desaparecido.

 

Pode ser que, depois de tanto tempo aprendendo a olhar primeiro para fora, a sua própria vontade simplesmente tenha aprendido a esperar.

 

E, da próxima vez que um “sim” sair rápido demais, talvez exista espaço para uma pequena pausa antes da resposta:

 

“Mas eu realmente quero fazer isso?”

 

Ana Carolina Faria | Psicóloga Clínica, CRP 04/04913 | @re_existirpsi

Quem sou eu?
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Maria Eduarda Chaves Siqueira

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Sou psicóloga clínica, com abordagem em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Atendo pessoas que enfrentam dificuldades emocionais como ansiedade, estresse, insegurança, baixa autoestima e desafios nos relacionamentos. Sou pós-graduada em Transtornos do Desenvolvimento e Análise do Comportamento. Meu trabalho é voltado à promoção da saúde emocional, ao autoconhecimento e ao desenvolvimento de estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.

Valor da Sessão / Tempo de duração

R$ 40,00

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