
Quando faltam palavras, a dança se torna caminho.
A dança como recurso terapêutico nos transtornos de ansiedade e depressão.
23 de abr. de 2026
ANA CAROLINA GONDIM SOARES ROCHA
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O significado do verbo dançar no dicionário Michaelis (2019), é "mover o corpo de maneira ritmada, geralmente ao som da música; bailar." Entretanto, o ato de dançar vai além de movimentos ritmados a um som, a dança é uma herança ancestral de conexão consigo, com o mundo e com a espiritualidade.
Nossos ancestrais dançavam com diversas finalidades, como: pedir chuva e bênção, celebrar o sol, agradecer, oferecer, acasalar, guerrear, simbolizar a passagem de fase do desenvolvimento humano, entre tantos outros ritos que a dança proporcionou ao longo da história da humanidade.
A dança sempre nos conectou e continua nos conectando até os dias de hoje. O ser humano diante da complexidade da vida, acessa a sabedoria do corpo, do canto e do som como fonte de expressão, inspiração e transcendência.
Na visão terapêutica baseada na abordagem da Gestalt-terapia, o ser humano é compreendido como um organismo singular que busca a integração, autenticidade e aceitação na constante relação com o meio em que vive. Somos uma totalidade biopsicossociocultural e espiritual, isso significa que temos aspectos: biológicos (corpo), psicológicos (consciência, emoções), sociais (relações, contexto social), culturais (valores, crenças) e espirituais (conexão, sentido) que estão interligados e se influenciam mutuamente na construção do comportamento e identidade de cada sujeito.
A partir desse olhar, entendemos que os sintomas surgem como forma de expressão que não encontram vias de satisfação adequadas, são sinalizações do próprio organismo na busca da autorregulação. Isso significa que somos um organismo vivo à procura do equilíbrio entre as nossas necessidades e as demandas do meio em que vivemos.
Muitas vezes, seguimos padrões de comportamento que deram certo no passado, mas que já não são mais adaptativos à realidade presente. Ao nos cristalizarmos em uma forma de ser que nos traz sofrimento e que não satisfaz a necessidade em questão de maneira funcional, sintomatizamos.
Na ansiedade, o sistema nervoso simpático pode ser hiperativado, estimulando respostas de luta ou fuga diante de um perigo percebido, muitas vezes antecipado ou incerto. A tentativa de prever, controlar ou evitar um evento futuro pode promover a manifestação de sinais corporais de alerta, como: respiração curta e rápida, tensão muscular, taquicardia, tremores, suor frio, sensações de descontrole.
Já na depressão, perante sofrimentos prolongados e sem o devido cuidado, é provável que ocorra uma redução do contato com a vitalidade e com o prazer. Sintomas como: retraimento, perda de interesses, sensação de corpo lentificado e pesado, diminuição do contato consigo e com o mundo aparecem como um indício de que algo precisa ser cuidado e transformado.
Assim, os sintomas dos transtornos de ansiedade e depressão podem ser compreendidos como evidências de que algo precisa ser visto, sentido, expresso e ressignificado.
É nesse ponto que a dança e o movimento corporal ganham relevância terapêutica, tendo em conta que mover-se é a arte de falar com o corpo coisas que, muitas vezes, a mente não consegue colocar em palavras. A dança nos convoca à presença com consciência: um estado de escuta ativa e entrega; um espaço de pesquisa e um ato criativo, utilizando o próprio corpo como instrumento.
Ao dançarmos, nos tornamos atentos à respiração, ao som, ao ritmo, ao próprio corpo e espaço corporal, ao espaço do outro e às emoções que surgem no movimento. É exatamente no aqui e agora que a ampliação de consciência e a possibilidade de ressignificação acontecem.
Portanto, para pessoas que apresentam sintomas ansiosos e depressivos, a dança pode ser uma importante ferramenta de expressão das emoções, da criação de novos potenciais e de conexão com o presente, algo que é frequentemente afetado nessas condições.
O que nos leva a entender que a dança e o movimento corporal não só fizeram parte da nossa construção histórica, como também podem ser recursos relevantes no processo terapêutico, pois auxiliam no trabalho com as emoções, possibilitam a expressão daquilo que não é dito, estimulam o processo criativo, nos conectam com dimensões de sentido e favorecem novas formas de percepção e ação na vida.
Sendo assim, o trabalho na clínica gestáltica é acolhedor e também experiencial. Entendemos que cada história de vida é única e nos moldou até aqui, mas é a partir do agora que podemos vivenciar novas possibilidades, fazer escolhas diferentes, nos nutrir do que verdadeiramente nos faz bem e, assim, voltar a fluir de forma mais saudável e integrada.
Se você sente algum dos sintomas mencionados neste artigo e percebe que isso tem afetado sua vida, buscar acompanhamento profissional pode ser um passo importante.
Você já atravessou muitos desafios ao longo da vida, lembre-se de que isso também passará. E, se precisar, estou disponível para caminhar ao seu lado.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
MICHAELIS: Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa On-line. São Paulo: Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca?id=eZE7. Acesso em: [21 de Abril de 2026].




