
"Tanto faz." "Por mim, tudo bem." "O que vocês preferirem." São frases tão pequenas que passam despercebidas. Parece gentileza, e às vezes é. Mas tem hora que alguém insiste, "E você, o que você quer de verdade?", e vem um branco.
Porque a resposta honesta é que faz tempo que você não sabe.
Faz tempo que você não pergunta a si mesma o que você quer. Quando perguntam, você procura a resposta no rosto do outro, no que vai ser mais fácil pra todo mundo, no que não incomoda ninguém. E quando a pergunta sobra só pra você, sem mais ninguém em volta pra consultar, o que aparece?
Talvez não seja só na hora de escolher o filme ou o restaurante. Quando foi a última vez que você quis alguma coisa, e o seu querer veio primeiro, antes de pensar o que era melhor pra todo mundo?
Será que você lembra da primeira vez que guardou pra si o que queria, só pra não desagradar?
Volta um instante para a menina que você foi: Será que ela podia anunciar seu querer em voz alta, discordar, esbravejar e bater o pé pelo que era dela?
Quem recebia um cafuné no fim do dia, a menina “boazinha” ou a “respondona”?
E nesse momento, você pode até me perguntar, “Mas Ana, como isso se relaciona com meu ‘Tanto faz’?”
Será que não foi assim que você foi aprendendo que a “mulher de respeito” é aquela que não dá trabalho?
Talvez, isso não apareça em palavras estruturadas, mas em atitudes tão corriqueiras e naturais que te escapam: Deixar de ir em um restaurante que você queria muito; engolir uma opinião numa roda de conversa pra não bancar a do contra; baixar o tom da própria empolgação para não parecer demais ou até mesmo pedir desculpa por ocupar espaço, por demorar, por sentir.
E quando chega a sua vez, você já está cansada demais, ou já nem lembra o que queria. Coisas miúdas, uma por uma. Mas será que você já notou, quantas vezes num único dia, você se apaga assim, com delicadeza, sem sequer perceber?
Será que você já somou quanto de você cabe em todos esses pequenos "tudo bem"?
E aí, quando alguém te pergunta "O que você quer?", e vem aquele branco, talvez ele não seja distração nem indecisão. Talvez seja o eco de todas as vezes em que a sua resposta foi a do outro.
O "Tanto faz" não é vazio: Ele está cheio de tudo o que você foi pedindo desculpas por desejar, por discordar, por ter uma opinião e ousar colocá-la.
Talvez a verdadeira revolução perpasse o movimento de não se desculpar por existir. "Tanto faz" foi a frase que te ensinaram. Mas existe outra, que parece ter sido proibida: "Eu quero".
Você passou anos aprendendo a caber. E se agora, devagar, você fosse aprendendo a ocupar o seu próprio espaço?
Ana Carolina Faria | Psicóloga - CRP 04/84913 | @re_existirpsi





