
Por que algumas vítimas de abuso sexual demoram para compreender o que aconteceu? Por que certas lembranças surgem apenas em fragmentos, como flashes desconexos, sensações ou imagens confusas? E por que, muitas vezes, o trauma continua presente mesmo anos depois?
A psicanálise de Freud ajuda a compreender que o trauma não funciona como uma memória comum. Em situações de violência extrema, o psiquismo pode não conseguir registrar o acontecimento de forma organizada. Em vez de uma lembrança clara, permanecem marcas emocionais profundas: medo, culpa, ansiedade, confusão, sensação de paralisia e até lacunas na memória.
Para Freud, experiências traumáticas ultrapassam a capacidade do sujeito de elaborar aquilo que viveu. O impacto é tão intenso que a mente cria mecanismos de defesa para tentar sobreviver ao sofrimento. Por isso, muitas vítimas relatam que só perceberam a gravidade do abuso muito tempo depois — como se “a ficha demorasse a cair”.
Essa compreensão também ajuda a desfazer julgamentos injustos frequentemente direcionados às vítimas. A dificuldade de reagir durante o abuso, o silêncio posterior, a confusão emocional e até comportamentos autodestrutivos podem estar ligados aos efeitos psíquicos do trauma, e não à ausência de sofrimento.
Outro ponto importante discutido pela psicanálise é a chamada compulsão à repetição. Freud observou que pessoas traumatizadas podem, inconscientemente, reviver situações semelhantes à experiência dolorosa original. Não porque desejem sofrer, mas porque o psiquismo tenta, repetidamente, elaborar aquilo que permaneceu sem sentido interno.
O trauma pode provocar um estado de desligamento psíquico. Em momentos de extremo terror, a consciência pode entrar em colapso, gerando sensação de anestesia emocional, desconexão do corpo e dificuldade de organizar pensamentos e emoções.
Apesar da profundidade dessas marcas, a psicanálise também aponta caminhos possíveis de elaboração. Quando a dor encontra espaço de escuta, acolhimento e palavra, aquilo que antes aparecia apenas como sofrimento fragmentado pode começar a ganhar significado. Falar sobre o trauma não apaga o ocorrido, mas permite que a experiência deixe de existir apenas como uma ferida silenciosa.
O trauma não desaparece completamente. Porém, ao ser narrado, compreendido e simbolizado, ele pode deixar de dominar toda a vida psíquica do sujeito.
A possibilidade de reconstrução começa justamente quando a dor deixa de ser vivida em silêncio.
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Referência bibliográfica:
AUTOR(ES). Título do artigo. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 45, 2025. Disponível em: PePSIC. Acesso em: 16 maio 2026.





