
Experienciar as vivências das Visitas Técnicas foi um dos momentos mais intensos e necessários para suprir algumas lacunas que somente a realidade pode preencher em uma formação em Saúde Mental. Coincidentemente ou não, a ordem das visitas tornou tudo mais real, uma vez que permitiu uma imersão no sistema de saúde mental no Brasil, quase como um desmame do ideal para o real. Tudo parecia nos preparar para o que realmente acontece e é mais recorrente na vida daqueles que enfrentam um problema de saúde mental e são pobres no Estado, nas tentativas e nas narrativas dos usuários e funcionários desse sistema, que, ao fim, deixa claro que está fadado ao fracasso.
Para os mais críticos, funciona exatamente da maneira para a qual foi criado: uma máquina que vicia, lesa, negligencia e mata pessoas com problemas psiquiátricos.
A visita à UAA permitiu uma roda de conversa com aqueles que trabalham ali. A casa é linda, muito perto da praia, com uma piscina convidativa, e o pessoal é super simpático e aliado à causa da redução de danos. Me surpreendeu o fato de haver 10 vagas e apenas 5 ocupadas. Confesso que acreditei na ideia de que só está na rua quem não tem outra opção, mas não: existem muitas camadas nas pessoas com problemas com álcool e drogas que não querem sair da vida na rua. Afinal, é na rua que a vida acontece.
No dia seguinte, fomos ao CAPS, que é o mesmo espaço frequentado pelos moradores da UAA. Conhecemos os usuários e o espaço, que lembra muito um hospital, apesar do nome – PRIMAVERA – mais uma das grandes contradições de um modelo que nasceu antimanicomial. As camas para acolhimento noturno são macas, as paredes são brancas, muitas pessoas dormem no chão, cansadas da vida vulnerável na rua.
Por fim, o terror da urgência psiquiátrica do Hospital São José, que, como está escrito em uma de suas paredes, se parece muito com o manicômio de Barbacena, protagonista do livro O Holocausto Brasileiro. Pessoas completamente dopadas e esquecidas por um Estado que as jogou ali, e familiares preocupados ou acostumados em deixar seu parente problemático naquele ambiente, que se parece muito com uma penitenciária.
Diante disso, é claro que a luta antimanicomial existe, mas é silenciosa e silenciada por não ter o que as lutas necessitam para se tornarem grandes: CREDIBILIDADE. Lutamos por uma causa perdida, por uma causa invisível, por uma causa, ironicamente, “doida”. Doida por enxergar humanidade em discursos tão confusos, por humanizar dependentes químicos que querem viver nas ruas, por oferecer uma casa como ponto de apoio para reorganizar a vida de alguém com uma dívida na boca de fumo.
Enfim, sigamos lutando, sabendo que perder é inevitável, mas que sucumbir não seja uma opção.




