
Há uma ideia muito difundida sobre a análise: a de que o psicólogo sabe.
Sabe mais, sabe antes, sabe melhor.
Como se tivesse acesso a uma verdade sobre você que nem você ainda alcançou. Essa suposição fala muito da nossa angústia diante do não saber: não saber o que sentimos, por que repetimos certas experiências ou o que fazer com aquilo que dói. O vazio desconcerta. E, quando ele aparece, é tentador imaginar que alguém tenha todas as respostas.
O silêncio pode ser confundido com domínio, e a escuta, com poder. Aos poucos, constrói-se a ideia de que o profissional sabe da sua vida mais do que você.
Mas a clínica não se sustenta nesse lugar.
O psicólogo não é alguém que sabe sobre você. É alguém que sustenta um espaço para que você possa começar a saber de si de outro modo. Quem viveu foi você. Quem sentiu foi você.
O trabalho analítico não é revelar uma verdade escondida pelo especialista, mas possibilitar que aquilo que ainda não encontrou palavras possa ganhar sentido, ligação e simbolização.
A inteligência tem seu valor. Ela organiza, explica e protege. Em muitos momentos da vida, pensar foi uma forma de não colapsar. Mas nem tudo se resolve pela via da razão. Há experiências que exigem tempo, presença e implicação afetiva.
Talvez por isso seja tão difícil simplesmente sentir. Escutar o outro sem responder imediatamente. Permanecer numa conversa sem oferecer soluções. Permitir que o que o outro traz nos atravesse antes de construirmos um argumento.
Sentir exige coragem, porque sentir nos coloca diante da vulnerabilidade. E o não saber continua ali.
A análise não elimina o não saber. Ela nos ajuda a habitá-lo com menos defesa e mais responsabilidade pela própria história.
Nathalia Oliveira Leite 🦋✨
Psicóloga - Clínica
CRP 03/29084





