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Sobre sentir demais

a intensidade emocional vista como inadequação pessoal

2 de set. de 2026

Marilissa Aires Correa da Silva

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Autoconhecimento

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Eu sempre senti demais.

 

Chorei em momentos considreados socialmente como inadequados ou em uma idade em que os outros chamavam de drama. Fui lida como intensa, infantil, sem controle. Durante muito tempo, acreditei que havia algo errado comigo. Que eu era difícil de conviver, que precisava me segurar, me moldar, me encaixar.

Mas o esforço de caber em expectativas que não consideravam meu funcionamento foi cobrando um preço. Um cansaço que não passava com descanso. Uma sensação de viver no piloto automático, sustentando uma performance diária para parecer normal.

 

Até que entendi: o sofrimento vinha da ausência de validação do sentimento. Um descompasso ntre as ferramentas que eu tinha e as que o mundo insistia que eu deveria ter.

 

Essa descoberta mudou a minha prática.

 

Porque no senso comum, no dia-a-dia, o sofrimento é naturalizado e acaba por virar "culpa" da própria pessoa, como se fosse apenas responsabilidade dela se adaptar ao mundo, totalmente oposto ao senso de inclusão e abertura a diversidade.

 

Hoje atendo pessoas neurodivergentes da adolescência à vida adulta. Pessoas que cresceram acreditando que aprenderam a viver errado, porque tentaram se adequar como todo mundo sem ter as mesmas ferramentas.

Gente que carrega o cansaço de sustentar uma rotina que não cabe mais. Que vive no piloto automático e deseja construir uma vida com direção, justamente por não se reconhecer, ou de nem lembrar como construi escolhas pelo caminho.

 

As escolhas para pessoas neurodivergentes muitas vezes são reflexo daquilo que se espera, porque embora não se aceite muito bem as regras emocionalmente, há um compromisso por fazê-lo por não ter exemplos concretos de como seria agir diferente.

 

Meu trabalho parte da escuta profunda e da autorreflexão. Uso exercícios de autoconhecimento, dinâmicas de escrita terapêutica e avaliação psicológica para reconhecimentos das forças e fraquezas pessoais diante das possibilidades e ameaças do social.

 

Mas, antes de projetar qualquer futuro, precisamos elaborar o que ficou para trás.

O luto do mapa antigo que não serve mais. A dor de perceber que passamos anos tentando ser quem não éramos e validar essa trajetória que também fez parte da construção da sua identidade e ajudou: "eu não sou assim, eu aprendi a ser assim".

 

O pertencimento genuíno não acontece num lugar ou em um espaço considerado legítimo, ele é uma autorização para ser, sem precisar performar para caber.

 

Adaptar-se a existência é sobre manter a identidade com regulação emocional.

 

Abraço, de longe porque embora acolhedora não sou muito de abraçar :)

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Leonardo Gaspar Pimentel

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