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Spoiler: gênero ainda está no rolê

Apenas acontece. Repetimos.

1 de jul. de 2026

Francieli Silva

00:00 / 01:04
Saúde mental

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Existe uma ideia bastante difundida de que, ao não serem heterossexuais, pessoas LGBT+ automaticamente rompem com as normas de gênero. Como se a orientação sexual, por si só, fosse suficiente para nos libertar dos papéis que aprendemos desde a infância.

 

Mas será que isso realmente acontece?

 

Desde muito cedo, aprendemos o que significa ser "forte", "delicada", "cuidadora", "provedor", "desejável". Antes mesmo de construirmos nossa forma de amar, já fomos ensinados sobre como homens e mulheres deveriam agir, sentir, desejar e se relacionar.

Esses aprendizados não desaparecem quando mudam nossas parcerias afetivas.

 

A estrutura binária na qual somos inseridos desde tão cedo continua moldando nossa maneira de amar, cuidar, desejar e construir valor sobre nós mesmos. Afinal, a forma como nos relacionamos não nasce do zero quando assumimos uma identidade ou orientação sexual; ela também é atravessada pela cultura, pela família, pelas experiências e pelos discursos que nos constituíram.

 

Por isso, as relações LGBT+ também carregam marcas dessas expectativas de gênero.

Talvez você já tenha ouvido ( ou até feito ) perguntas como:

  • Quem é o homem da relação?
  • Quem é a mulher?
  • Quem toma a iniciativa?
  • Quem protege?
  • Quem cuida mais?

Essas perguntas revelam uma tentativa de encaixar experiências diversas em modelos que já conhecemos. Em vez de aceitar novas possibilidades de vínculo, buscamos reproduzir papéis familiares, como se toda relação precisasse obedecer a uma lógica previamente estabelecida.

 

Mas será que precisamos, de fato, definir quem ocupa qual papel?

 

A repetição desses roteiros pode limitar a construção de relações mais livres, nas quais as funções não sejam determinadas pelo gênero, mas negociadas a partir do desejo, da singularidade e das necessidades de cada pessoa.

Isso não significa que ninguém possa gostar de ocupar determinados lugares. A questão é outra: esses lugares são fruto de uma escolha ou apenas repetimos aquilo que aprendemos ser o esperado?

Do ponto de vista da psicanálise, grande parte dessas formas de agir acontece sem que tenhamos plena consciência. Repetimos modos de amar, de desejar e de nos posicionar porque fomos constituídos dentro de uma determinada organização simbólica. Nem sempre percebemos o quanto as normas de gênero continuam presentes, mesmo quando acreditamos estar completamente fora delas.

 

A boa notícia é que reconhecer essas repetições abre espaço para novas possibilidades.

 

Nem toda relação precisa reproduzir os mesmos roteiros de masculinidade e feminilidade. Outras formas de amar, cuidar, construir intimidade e dividir responsabilidades são possíveis.

E isso não diz respeito apenas às relações LGBT+. As relações heterossexuais também são atravessadas por expectativas de gênero que, muitas vezes, organizam o desejo, os conflitos e a forma como cada pessoa ocupa seu lugar na relação.

Questionar esses roteiros não significa encontrar um modelo ideal de relacionamento. Significa abrir espaço para relações mais singulares, menos guiadas pela obrigação de corresponder a papéis previamente definidos e mais sustentadas pelo encontro entre duas subjetividades.

Porque, muitas vezes, agir e sentir dentro da lógica binária não é exatamente uma escolha consciente.

 

Apenas acontece. Repetimos.

E talvez a pergunta mais importante não seja "quem é o homem?" ou "quem é a mulher?" da relação, mas sim:

Que relação estamos criando?

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