
Tem esse poema que eu gosto muito e queria compartilhar aqui.
"Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim, leva um tempão para sair.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim, caio... é um hábito.
Meus olhos se abrem. Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
Ando por outra rua."
Esse poema me foi lido pela primeira vez em um grupo de estudos anos atrás, e me chocou. Não de forma ruim ou disruptiva, mas me inundou com essa imagem da rua que vivemos a caminhar.
A terapia é um pouco assim. A gente no início não vê os buracos, cai neles repetidas vezes. A queda dói, o buraco é escuro, feio, sujo, assustador. A gente esperneia, chora, se sente perdido, com medo e às vezes leva um tempão até a gente encontrar um caminho de volta à nossa rua.
Mas a gente acha.
E acha também que agora o buraco ficou para trás, sem perceber que a gente tá brincando de corda bamba sobre ele. Caímos de novo.
Raiva. Por que eu tô aqui de novo?
É culpa dele, culpa dela, culpa da vida, do mundo… Culpa até o prefeito que não tampou o buraco na rua!
De novo a gente sai, e de novo a gente caminha pela rua horas sem ver, horas flertando com a queda, horas tropeçando sem querer e horas parece que a gente pula de cabeça.
A terapia envolve muita repetição de certos hábitos, padrões, situações…
Mas cada vez que a gente repete, a gente repete um pouquinho diferente.
Até que a gente passa a enxergar melhor o que existe no buraco e entende melhor os nossos passos até ali. O mundo não vai tampar os buracos das ruas, mas a gente pode passar a enxergar os buracos das nossas ruas com mais consciência.
A terapia não é só aprender a desviar do buraco, é sobre poder a cair diferente a cada vez, sobre aprender a sair e ter a liberdade de escolher outra rua.
Sabendo que nela, também, vão haver buracos.
FONTE:
Poema "Autobiografia em cinco capítulos" do livro "Tibetano do viver e do morrer", do autor Sogyal Rinpoche





