
Vivi algo que me marcou de forma muito negativa. Foi um trauma? O que é da ordem do traumático? É possível medir?
Não existe uma medida para determinar, mas você sente e percebe: passou dos seus limites, enojou seu corpo, criou uma fixação em seus pensamentos, ou mesmo uma lacuna que você prefere não preencher, não se lembrar. Algo parece voltar e assombrar. E para piorar, não consegue falar com outras pessoas a respeito disso. Seja porque ninguém entenderia, ninguém validaria a dor que sente ou porque é um assunto delicado demais para você.
Então, talvez você saiba, de alguma forma, que aquilo foi traumático. E nomear o que você viveu é uma atitude que te faz aos poucos sair da passividade e cultivar ação frente ao acontecimento.
Depois do trauma, o que fica no corpo?
Marcas.
Marca indesejada, marca maldita.
Quero arrancar, quero sair e buscar outro corpo. Quero desaparecer e acordar em um dia em que nada daquilo aconteceu.
Raiva, quero que paguem pelo que fizeram comigo.
Quero muitas coisas. Ou então, não quero mais nenhuma. Será que ainda tenho voz? Será que ainda tenho vontade? Tenho caminhos?
Ser corpo marcado. Não, não é fácil. Mas alguém aqui já viu corpo sem marcas?
Cada vez que um acontecimento com alta intensidade emocional nos causa uma ruptura, podemos entender que é uma violência vivida por nosso corpo em sua forma atual. Esse corpo, então, é convocado a se modificar, ser outro, ter outro modo de pensar sobre as coisas, de sentir e de se comportar. Vivenciar um acontecimento destes te convoca a criar uma nova versão de si.
E isso é algo que fazemos em psicoterapia: atualizamos nossa narrativa de nós mesmos, de nossa história. Narrar-se carrega o potencial de tecer a si mesmo em novas configurações.
Conversar com outra pessoa a respeito de um acontecimento traumático pode ser importante. Não só para ser escutado, cuidado e reconhecido em sua dor. Mas também para assumir seu protagonismo enquanto sujeito com desejo e propósito - algo que foi retirado de você no momento em que passou por uma situação traumática que te colocou num local de objeto (passivo), ou seja, impotente e sem possibilidades de escolha. Estar junto a outros pode fortalecer e criar uma rede de confiança. Com-fiar - fiar junto de outros possibilidades reais de ação sobre a vida e sobre o mundo. É na coletivização que se provocam mudanças no campo social!
Então sim, meu corpo está marcado. Não só de uma, mas de várias marcas: alegrias, tensões, confusões, sonhos… todas elas coexistem e fazem de mim um mosaico, uma colcha de retalhos. Sempre capaz de crochetar mais e mais quadradinhos. O corpo é processo e está sempre se produzindo.
Como se produzir de modo a prosseguir com a vida? Como se produzir de modo a ser sujeito que continua desejando e sonhando?
No “como” prosseguimos…
“As marcas são estados vividos em nosso corpo no encontro com outros corpos, a diferença que nos arranca de nós mesmos e nos torna outro.” Suelly Rolnik (Texto: Pensamento, corpo e devir, p.5)
Imagem: Fotos da exposição “A terra, o fogo, a água e os ventos - por um museu da errância com Édouard Glissant” no Instituto Tomie Ohtake. Pintura do artista Arébénor Basséne.
@psi.anaesposito




