
Você não está repetindo o passado. Está tentando reescrevê-lo.
Sobre a compulsão à repetição — e por que cada nova relação pode ser uma tentativa de produzir um final diferente para uma cena muito antiga.
24 de ago. de 2026
Arthur Almeida Caram Andre
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Existe algo na compulsão à repetição que Freud observou e que desconcerta: o sujeito não repete apenas o que foi bom. Repete — às vezes com maior intensidade — o que produziu sofrimento. Como se algo o convocasse de volta, repetidamente, para configurações que já sabe que terminam mal.
A leitura superficial é masoquismo. A leitura analítica é mais precisa: o sujeito não está repetindo o passado. Está tentando produzir um novo final para uma cena que nunca fechou.
"Cada nova relação pode funcionar como um novo palco para uma tentativa antiga: desta vez, conseguirei que esse Outro me escolha, me reconheça, não me abandone."
A criança que nunca obteve reconhecimento do pai pode passar décadas tentando obtê-lo simbolicamente de chefes, parceiros, figuras admiradas. Não conscientemente. Mas cada vez que encontra alguém que encarna aquela posição — difícil de agradar, crítico, emocionalmente distante — algo se acende. Porque ali está, de novo, a cena. E com ela, a esperança: agora vai. Agora serei suficiente.
Lacan nomeou isso como fantasia fundamental — a resposta inconsciente que cada sujeito constrói para a pergunta que o Outro primário deixou em aberto: o que preciso ser para ser desejado? Que lugar estou autorizado a ocupar? Essa fantasia não é uma crença consciente. É uma posição. Um roteiro que organiza silenciosamente quem o sujeito escolhe, como se posiciona, o que tolera, o que não consegue receber.
"O problema não é que você repete. É que você repete sem saber que está repetindo — e por isso cada vez parece a primeira, e cada vez termina parecendo azar."
E aqui está o paradoxo central: porque a cena nunca se resolve definitivamente — porque o Outro original não pode mais dar a resposta que não deu — ela pode ser repetida indefinidamente. O parceiro muda. A posição permanece. E a repetição continua sendo vivida como busca, não como padrão.
O momento em que algo muda na análise não é quando o sujeito decide parar de repetir. É quando consegue ver a cena enquanto ela está acontecendo. Reconhecer a posição que está ocupando. E perguntar — talvez pela primeira vez — se ainda quer ocupá-la.
Não porque o passado vá ser reescrito. Mas porque, quando a repetição finalmente tem nome, ela deixa de parecer destino.
Você não está preso numa maldição.
Está numa estrutura que foi construída antes de você ter voz sobre ela —
e que continua operando porque nunca foi nomeada com precisão suficiente.
A repetição só para de parecer destino
quando o sujeito consegue ver a cena de fora —
e perceber que ela não precisa terminar sempre igual.
Quem sou eu?

Luciana Cetrim de Almeida Matos
CRP:

04/14838
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Psicóloga clínica com 29 anos de trajetória dedicada à saúde mental, combinando uma sólida experiência clínica com sólida especialização em neuropsicologia e psiquiatria.
Minha prática é pautada na precisão diagnóstica e no cuidado humanizado. Sou especialista em avaliação e reabilitação neuropsicológica, realização de testagens, psicodiagnósticos e emissão de laudos especializados.
Além disso, atuo há mais de 10 anos como conselheira em dependência química, possuindo larga experiência no manejo de quadros complexos em psiquiatria e psicopatologia. Meu compromisso é oferecer um olhar clínico aprofundado que propicie diagnósticos assertivos e caminhos reais de reabilitação e qualidade de vida.
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