
The Handmaid's Tale (O conto da Aia) é um livro de 1985 da autora Margaret Atwood. Foi adaptado para série em 2017, finalizada em 2025, mas que voltou a ser muito comentada e discutida recentemente.
Quando li, em 2018, aquele mundo era uma realidade tão surreal pra mim que eu pensava: "Claro que não! A autora criou um universo distópico. Exagerou para nos alertar. Não é baseado em fatos reais, como ela diz, é uma caricatura"
Pois bem, imaginem meu choque quando, em pleno 2026, quase uma década depois, quando o esperado (pelo menos pra mim) seria progressos no campo das discussões de gênero e de igualdade, pessoas estão questionando o voto feminino, negando o feminicídio, se dizendo antifeministas, e pior, mulheres e governantes se apropriando e disseminando esses discursos.
Mas vamos lá, o que isso tem a ver com a Psicanálise?
Gilead não se sustenta apenas pela violência, mas (principalmente) pela construção de crenças, pela manipulação dos discursos e pela transformação de regras em verdades incontestáveis. A série permite pensar como as pessoas e uma sociedade inteira podem participar da produção da própria submissão.
Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud investiga como as pessoas se identificam com figuras de autoridade e com aqueles que compartilham suas crenças. O pertencimento a um grupo fortalece vínculos, mas também enfraquece o questionamento individual, a reflexão. Em Gilead, a identificação com os ideais religiosos e com seus líderes legitima a violência em nome de uma suposta ordem coletiva.
Em O futuro de uma ilusão, ele analisa o papel das crenças religiosas frente ao desamparo humano e à necessidade de encontrar proteção e sentido. Na série, a religião é utilizada para justificar a hierarquia e controlar os corpos, como se a obediência a essas regras correspondessem a uma ordem divina. Isso não significa que toda religião produza dominação, mas que discursos religiosos podem ser instrumentalizados (e muitas vezes são) para legitimar relações de poder.
Em O mal-estar na civilização, é apontada uma tensão sempre presente: viver em sociedade exige renúncias, mas as regras que organizam a vida coletiva podem produzir sofrimento. A questão é o que acontece quando essas renúncias deixam de servir à convivência e passam a sustentar interesses de grupos dominantes através da opressão de outros.
Lacan oferece uma perspectiva que vai ainda mais fundo: somos constituídos na relação com a linguagem e com o Outro — o campo simbólico de normas, valores e significados que já existe e nos atravessa antes mesmo de nascermos. Em Gilead, os discursos sobre maternidade, feminilidade e obediência visam determinar o que uma mulher deve ser, desejar e fazer. Quando esses discursos são impostos como verdades absolutas, restringem as possibilidades de cada sujeito desejar e construir a própria existência.
E o que isso tem a ver com a nossa realidade?
Embora seja uma ficção, a série é um convite para observar como discursos sobre família, moralidade, gênero e comportamento podem naturalizar desigualdades e injustiças. O controle nem sempre precisa aparecer como uma proibição explícita: também pode operar pela culpa, pelo medo, pela exclusão e pela repetição de ideias e de comportamentos que, sutilmente, deixam de ser questionados.
A pergunta mais inquietante é: do que precisamos abrir mão para chegar a esse ponto?
Questionar essa realidade e esses discursos é dar espaço para outras formas de existir!
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