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O atalho que vai fechando caminhos: sobre o custo de evitar o desconforto

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23 de jul. de 2026

Luisa Homsi Jorge Ferreira

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Tomada de decisão

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Existe um comportamento tão frequente na vida de qualquer pessoa que quase não o percebemos enquanto acontece: fugir daquilo que incomoda. Ele aparece de formas discretas, quase sempre justificáveis, e raramente chama atenção para si. Adiar uma conversa difícil para a semana que vem. Recusar um convite quando a ansiedade aperta pouco antes de sair de casa. Mudar de assunto quando a discussão se aproxima de algo delicado. Rolar o feed do celular quando um pensamento desconfortável começa a se formar.

Nenhuma dessas ações é dramática. Nenhuma delas parece, isoladamente, um problema. E é justamente essa discrição que torna o padrão difícil de identificar em nós mesmos.

Por que evitar funciona tão bem

A primeira coisa a compreender é que evitar não é um erro de cálculo. É um comportamento eficaz.

Quando nos afastamos de algo desconfortável, o desconforto diminui de imediato. E aquilo que reduz o mal-estar tende a se repetir, porque é assim que aprendemos: o alívio ensina. Um comportamento que produz um resultado imediato favorável se fortalece, com ou sem nossa deliberação consciente.

Isso significa que fugir do que dói não é fraqueza, falta de disciplina nem ausência de força de vontade. É um processo de aprendizagem funcionando exatamente como deveria funcionar. A dificuldade não está no mecanismo, que é adaptativo em inúmeras situações, mas naquilo que ele produz quando se torna a estratégia predominante de lidar com o mundo interno.

Fuga e esquiva: dois nomes para um mesmo processo

Nas terapias comportamentais e contextuais, esse padrão é estudado há décadas e recebe duas denominações distintas, que ajudam a organizar o que observamos no cotidiano.

Fuga é o comportamento que interrompe um desconforto já presente. Sair de uma festa quando a ansiedade se torna intensa é fuga: a situação aversiva estava acontecendo, e o comportamento a encerrou.

Esquiva é o comportamento que impede o desconforto de aparecer. Não ir à festa é esquiva: o mal-estar sequer chegou a se instalar, porque a situação que o produziria foi evitada de antemão.

Os dois se mantêm pelo mesmo motivo. Funcionam. O desconforto some ou não chega, e o comportamento que produziu esse resultado se fortalece, tornando-se mais provável na próxima oportunidade.

Vale registrar que essa mesma classificação se aplica quando aquilo de que fugimos não é uma situação externa, mas um conteúdo interno: um pensamento, uma lembrança, uma emoção, uma sensação corporal. A Terapia de Aceitação e Compromisso chama esse fenômeno de esquiva experiencial, e o descreve como a tentativa de alterar a frequência, a forma ou a intensidade de experiências privadas, mesmo quando isso produz prejuízo naquilo que a pessoa valoriza.

A conta que chega depois

Cada esquiva resolve o momento. Mas ela também ensina outra coisa, silenciosamente: que aquilo era mesmo insuportável, e que a decisão de se afastar estava correta.

É por isso que o custo raramente aparece de imediato. Ele se acumula.

A conversa adiada se transforma em um assunto cada vez mais difícil de abrir, porque a cada semana de silêncio o peso do tema aumenta. O convite recusado reduz o repertório de situações sociais, e cada recusa torna a próxima um pouco mais provável. O projeto engavetado se torna mais ameaçador a cada mês, porque a distância entre a pessoa e a tarefa cresce junto com a expectativa de fracasso.

O alívio é imediato. O custo é cumulativo. E essa assimetria temporal é exatamente o que torna o padrão tão difícil de perceber de dentro: o benefício é visível na hora, o prejuízo só se mostra em retrospecto.

Quando a vida vai ficando menor

Com o tempo, o efeito se torna estrutural.

Menos lugares frequentados, menos conversas iniciadas, menos possibilidades consideradas. Não porque a pessoa deixou de querer essas coisas, mas porque cada vez mais experiências foram sendo evitadas, uma a uma, cada qual por uma razão que parecia boa no momento.

O que resulta disso é uma vida organizada em torno de não sentir, em vez de organizada em torno daquilo que importa. E essa é uma diferença considerável, porque a primeira exige vigilância constante, enquanto a segunda permite direção.

Nem toda evitação é um problema

Este é um ponto que merece cuidado, porque a leitura apressada do que foi dito até aqui pode produzir uma conclusão equivocada.

Afastar-se não é sempre um problema. Sair de uma situação genuinamente perigosa, encerrar um contato abusivo, recusar uma demanda que não faz sentido ou que ultrapassa o que se pode sustentar naquele momento: nada disso é esquiva problemática. É proteção, e é uma habilidade importante.

A diferença entre uma coisa e outra não está na aparência do comportamento, e sim na sua função. A mesma ação, não comparecer a um evento, pode ser proteção legítima em um contexto e esquiva restritiva em outro. O que distingue os dois casos é o efeito que o padrão produz na vida da pessoa ao longo do tempo.

Por isso, a pergunta útil não é "estou evitando alguma coisa?", que quase sempre terá resposta afirmativa e não leva a lugar nenhum. A pergunta é: o que essa evitação está me custando naquilo que eu valorizo?

O caminho não é forçar

Se o problema é evitar, poderia parecer que a solução é o oposto: encarar tudo, suportar qualquer desconforto, exigir de si uma tolerância que não se tem.

Não é isso.

Obrigar-se a atravessar situações difíceis por disciplina ou por autocobrança costuma produzir mais um tipo de sofrimento, sem alterar a relação da pessoa com aquilo que sente. A proposta das terapias contextuais é outra: abrir espaço para o desconforto na medida em que ele aparece no caminho de algo que importa. Não como um exercício de resistência, mas como consequência de escolher uma direção.

A diferença é sutil e decisiva. Não se trata de sentir menos, nem de aprender a não ter medo, ansiedade ou tristeza. Trata-se de que aquilo que se sente deixe de decidir sozinho por onde a sua vida pode passar.

Uma pergunta para levar

Se o medo, a ansiedade ou a tristeza deixassem de ser um obstáculo, e aqui não estou falando em fazê-los desaparecer, mas apenas em que deixassem de decidir por você, o que você faria hoje que vem adiando?

Não é uma pergunta com resposta rápida. Mas costuma ser um bom lugar por onde começar.

Sobre a autora

Se essa reflexão fez sentido para você, a psicoterapia pode ser um espaço para olhar com mais calma para esse funcionamento e para o que ele tem custado.

Luísa Homsi Jorge Ferreira
Psicóloga, CRP 06/233094
Atendimento online para adultos e idosos, em terapia analítico-comportamental e terapias contextuais.
Contato: luisa.hj.ferreira@gmail.com | (16) 99621-7931 | @psi.luisahjferreira

Referências

Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996). Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152 a 1168.

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2a ed.). New York: Guilford Press.

Sidman, M. (1995). Coerção e suas implicações. Campinas: Editorial Psy.

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