
Existe um hábito muito comum de dividirmos o que sentimos em gavetas, separando-as entre sentimentos "bons" e "ruins". Nessa lógica, enquanto a alegria é sempre bem-vinda e celebrada, a raiva acaba sendo jogada para o escanteio, vista quase como uma falha de caráter ou um erro que precisa ser corrigido. Mas vale a pena refletir: quem é que define esse julgamento?
Quando rotulamos a raiva como algo puramente negativo, perdemos a oportunidade de entender a sua função vital na nossa psique. Muitas vezes, o que fomos ensinados é que sentir raiva não é permitido, o que nos leva a reprimi-la ou a confundi-la com angústia, dependendo da intensidade com que ela nos atinge.
Se olharmos de perto, a raiva é uma emoção extremamente potente e capaz de nos mover quando nada mais consegue. Ela se manifesta de diversas formas e por diferentes motivos, como na raiva da sobrecarga, que surge quando acumulamos funções excessivas e nos sentimos sufocados pelas demandas externas. Existe também aquela raiva que fica entalada na garganta, um nó físico que às vezes parece que só será desfeito através de um grito ou de uma explosão. Há ainda a raiva da frustração, que aparece no limite entre o nosso desejo e a nossa capacidade de realizar algo. Cada uma dessas faces revela uma necessidade não atendida ou um limite que foi ultrapassado.
No contexto da terapia, a raiva deixa de ser um tabu e passa a ser vista como um sentimento poderoso e revelador. Através dela, conseguimos parar, observar e entender o que o nosso corpo e a nossa mente estão tentando sinalizar. Em vez de ser algo a ser evitado, ela se torna uma bússola que nos direciona e nos encaminha para mudanças necessárias em nossa vida. É perfeitamente possível e saudável nos conhecermos através da raiva, utilizando sua energia não para a destruição, mas como uma ferramenta de autoconhecimento que nos ensina onde termina o outro e onde começamos nós mesmos.




