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Quando o corpo fala aquilo que não conseguimos dizer

Quando o corpo fala aquilo que não conseguimos dizer: um ensaio teórico sobre psicossomática na perspectiva psicanalítica

18 de jul. de 2026

Rodrigo de Moura Reis

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Quando o corpo fala aquilo que não conseguimos dizer

 

Rodrigo de Moura Reis

Psicólogo · Abordagem Psicanalítica

 

RESUMO

Este ensaio teórico, de natureza bibliográfica, examina, sob a perspectiva psicanalítica, o fenômeno da expressão psicossomática do sofrimento psíquico não elaborado pela via da palavra. Parte-se da premissa, formulada por Freud e Breuer, segundo a qual sintomas corporais desprovidos de causa orgânica identificável podem constituir uma forma de comunicação de conteúdos emocionais não simbolizados. Articulam-se as contribuições de Pierre Marty e da Escola Psicossomática de Paris, de Joyce McDougall acerca da potencialidade psicossomática, de Donald Winnicott sobre a integração entre psique e soma, de Didier Anzieu a respeito da formação do envoltório psíquico, e de Christophe Dejours sobre a psicodinâmica do trabalho, relacionando tais contribuições à prática clínica e às exigências da cultura contemporânea sobre a saúde emocional. Conclui-se que a escuta clínica dos sintomas corporais, articulada à história do sujeito, constitui via de cuidado complementar, e não substitutiva, à assistência médica.

 

Palavras-chave: Psicossomática. Psicanálise. Corpo. Sofrimento psíquico. Escuta clínica.

 

ABSTRACT

This theoretical essay, of a bibliographic nature, examines, from a psychoanalytic perspective, the phenomenon of psychosomatic expression of psychic suffering not elaborated through language. It departs from the premise, formulated by Freud and Breuer, that bodily symptoms without an identifiable organic cause may constitute a form of communication of emotional content that has not been symbolized. The contributions of Pierre Marty and the Paris Psychosomatic School, Joyce McDougall on psychosomatic potential, Donald Winnicott on the integration between psyche and soma, Didier Anzieu on the formation of the psychic envelope, and Christophe Dejours on the psychodynamics of work are articulated and related to clinical practice and to the demands that contemporary culture places on emotional health. It is concluded that clinical listening to bodily symptoms, articulated with the subject's history, constitutes a form of care that complements, rather than replaces, medical assistance.

 

Keywords: Psychosomatics. Psychoanalysis. Body. Psychic suffering. Clinical listening.

 

1 INTRODUÇÃO

 

Na prática clínica em psicologia é recorrente o relato de pacientes que não conseguem identificar a origem de seu mal-estar. Queixas como insônia persistente, taquicardia sem etiologia cardíaca, cefaleias frequentes, tensão muscular, desconforto gastrointestinal, dispneia e fadiga crônica surgem, com frequência, na ausência de achados médicos que as justifiquem. Esse fenômeno, historicamente relegado ao campo exclusivo da medicina ou interpretado de maneira genérica como manifestação de estresse, constitui objeto de investigação da psicanálise desde os seus fundamentos, particularmente a partir dos estudos de Freud e Breuer (2016 [1893-1895]) sobre a histeria.

 

A relevância do tema justifica-se tanto pela frequência com que tais quadros se apresentam na clínica contemporânea quanto pela persistência de leituras reducionistas, que ora atribuem esses sintomas exclusivamente a fatores orgânicos ainda não diagnosticados, ora os classificam de maneira genérica como somatização, sem investigação mais aprofundada de seu sentido psíquico. A perspectiva psicanalítica oferece, nesse cenário, um instrumento teórico capaz de articular a dimensão subjetiva do sofrimento à sua expressão corporal, sem prescindir do necessário diálogo com a medicina.

A hipótese central deste ensaio é a de que, em determinadas condições, o corpo assume a função de expressar conteúdos psíquicos que não encontraram, pela via da palavra, um caminho de elaboração. Não se trata de reduzir toda manifestação física a uma causa emocional, tampouco de prescindir da investigação médica, mas de reconhecer que, uma vez descartadas ou tratadas as causas orgânicas, pode subsistir uma dimensão de sofrimento psíquico que demanda escuta especializada (MCDOUGALL, 2013).

 

Este texto propõe-se a articular, a partir da literatura psicanalítica clássica e contemporânea, uma leitura teórica desse fenômeno, relacionando-o às pressões da cultura de produtividade que caracteriza a vida contemporânea (DEJOURS, 2015) e à prática clínica cotidiana do psicólogo de orientação psicanalítica. O texto está organizado em quatro seções principais, além desta introdução: os procedimentos metodológicos que orientaram a seleção bibliográfica; o desenvolvimento teórico, subdividido em dez subseções que articulam os diferentes autores selecionados; e as considerações finais, nas quais se sintetizam os principais argumentos e se apontam limites e desdobramentos possíveis deste ensaio.

 

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

 

Este trabalho configura-se como ensaio teórico de natureza bibliográfica, de caráter qualitativo e exploratório, elaborado a partir da revisão e da articulação de obras clássicas e contemporâneas do campo psicanalítico dedicadas à relação entre corpo e psiquismo. Não se trata de pesquisa empírica, tampouco de relato de caso clínico stricto sensu; eventuais referências à prática clínica possuem caráter ilustrativo e reflexivo, sem identificação de pacientes reais, e visam apenas situar teoricamente os fenômenos discutidos.

 

A seleção bibliográfica privilegiou autores fundadores e de referência no estudo da psicossomática psicanalítica: Freud e Breuer (2016 [1893-1895]), pelos estudos sobre histeria e conversão; Winnicott (2000), pela teoria da integração entre psique e soma; Marty (1993), fundador da Escola Psicossomática de Paris; McDougall (2013), pelo conceito de potencialidade psicossomática; Anzieu (1988), pela teoria do eu-pele; e Dejours (2015), pela psicodinâmica do trabalho. A leitura articulada dessas obras orientou a construção do argumento central deste ensaio: o de que o sintoma corporal, quando desprovido de causa orgânica identificável, pode ser compreendido como forma de comunicação psíquica que demanda escuta qualificada, complementar à intervenção biomédica.

 

Optou-se pelo formato de ensaio teórico, em detrimento de revisão sistemática ou de estudo de caso, por se considerar que a articulação conceitual entre autores de diferentes momentos históricos da psicanálise, da segunda metade do século XIX às contribuições contemporâneas sobre a psicodinâmica do trabalho, demanda tratamento discursivo e argumentativo que a revisão sistemática, orientada por critérios quantitativos de busca e seleção, não comportaria de maneira adequada. O ensaio permite, ainda, a incorporação de reflexão clínica de natureza qualitativa, sem a exigência de protocolo empírico formal, o que se ajusta aos objetivos teóricos aqui propostos.

 

3 DESENVOLVIMENTO

 

3.1 Os sintomas somáticos mais recorrentes na clínica

Determinados sintomas físicos, quando investigados clinicamente e desprovidos de causa orgânica identificável, apresentam recorrência significativa na clínica psicológica. A insônia figura entre os mais frequentes: instala-se, com frequência, no momento em que o corpo se aquieta e a mente, livre das tarefas cotidianas, permanece a sós com conteúdos que durante o dia foram mantidos à distância. Winnicott (2000) descreveu esse fenômeno ao afirmar que conteúdos ainda não pensados tendem a retornar quando as defesas conscientes se afrouxam.

 

A taquicardia sem etiologia cardíaca constitui a expressão mais literal de um estado de alerta que já não guarda relação direta com o presente, mas com a história emocional do sujeito. McDougall (2013) denomina essa disposição de potencialidade psicossomática: capacidade que todo sujeito possui, em maior ou menor grau, de recorrer ao corpo quando a elaboração psíquica não é suficiente para conter o sofrimento. De modo semelhante, as cefaleias e a tensão muscular, especialmente na região cervical e na mandíbula, denunciam um esforço de conter aquilo que não pôde ser verbalizado; Anzieu (1988) relaciona esse fenômeno à fragilidade da fronteira entre o interno e o externo, que o corpo passa a sustentar na ausência de outro limite.

 

Os desconfortos gastrointestinais guardam relação simbólica com aquilo que não se consegue digerir em sentido figurado, imagem já explorada por McDougall (2013) na leitura do corpo como palco de conflitos não simbolizados. Por fim, a dispneia associada a quadros de ansiedade e a fadiga crônica que o repouso não resolve costumam sinalizar, respectivamente, a ausência de espaço psíquico para elaboração e um esgotamento de natureza emocional, e não apenas física, decorrente de uma adaptação excessiva às exigências do ambiente (WINNICOTT, 2000). Nenhuma dessas leituras dispensa a avaliação médica, que permanece etapa indispensável e anterior a qualquer investigação de natureza psíquica.

Do ponto de vista clínico, a recorrência desses sintomas indica que o corpo raramente reage no exato momento do conflito psíquico que os origina. Observa-se, com maior frequência, um intervalo entre a vivência conflitiva e o aparecimento do sintoma, período em que as defesas psíquicas ainda sustentam, sozinhas, aquilo que posteriormente pede elaboração. Esse deslocamento temporal dificulta, muitas vezes, o reconhecimento da relação entre o sintoma e sua origem, o que reforça a importância de uma investigação clínica atenta à história de vida do sujeito, e não apenas ao quadro sintomático apresentado no momento da consulta (MCDOUGALL, 2013).

 

3.2 A cultura da produtividade e a psicodinâmica do trabalho

A organização social contemporânea atribui valor destacado à produtividade e à autossuficiência, associando o repouso à improdutividade e a busca por ajuda a um sinal de fragilidade. Tal configuração cultural favorece a manutenção do sofrimento psíquico em silêncio, na linha do que Winnicott (2000) descreveu como o custo psíquico de uma adaptação excessiva ao ambiente. No campo específico das relações de trabalho, Dejours (2015) denomina sofrimento patogênico aquele que surge quando a organização da tarefa não permite qualquer margem de negociação entre suas exigências e o funcionamento psíquico do trabalhador.

 

Esse quadro atinge com particular intensidade sujeitos em posição de cuidado constante, como profissionais de saúde e responsáveis por dependentes, para os quais adoecer, ainda que discretamente, pode constituir a única via disponível para reivindicar uma pausa que a consciência já não se permite solicitar (ANZIEU, 1988). Dejours (2015) chega a conclusão semelhante a partir da clínica do trabalho: quando a fala sobre o sofrimento é impedida pela própria organização produtiva, resta ao corpo sustentar, isoladamente, aquilo que não pôde ser dito nem coletivamente reconhecido.

 

Importa destacar que a psicodinâmica do trabalho, tal como formulada por Dejours (2015), não trata o sofrimento laboral como fenômeno estritamente individual, mas como resultado da relação entre a organização do trabalho e a subjetividade de quem o executa. Nesse sentido, estratégias defensivas coletivas, como a banalização do sofrimento e a naturalização de ritmos excessivos de produção, contribuem para que o adoecimento psíquico permaneça invisibilizado no ambiente laboral, restando ao corpo individual a tarefa de expressar aquilo que a organização coletiva do trabalho não permite verbalizar.

 

3.3 Investigação médica e escuta psicanalítica: uma articulação necessária

A interpretação de sintomas físicos exclusivamente como manifestação de estresse, embora frequente, tende a obscurecer a pergunta que a psicanálise propõe: o que esse sofrimento pretende comunicar. Tal pergunta não se opõe à investigação médica; antes, complementa-a nos casos em que os exames, embora normais, não eliminam o mal-estar relatado pelo sujeito (FREUD; BREUER, 2016 [1893-1895]).

 

É frequente que o paciente chegue ao consultório psicológico após percurso extenso por diferentes especialidades médicas, com resultados normais e sem explicação satisfatória para o próprio sofrimento. Nesses casos, a intervenção psicológica não substitui o acompanhamento médico, mas acrescenta a ele uma investigação de outra natureza, voltada à dimensão emocional, histórica e relacional do sintoma (MCDOUGALL, 2013).

 

Essa articulação entre os campos médico e psicológico exige, por parte do profissional de psicologia, cautela redobrada quanto aos limites de sua atuação: cabe ao psicólogo acolher a demanda emocional do paciente e, quando necessário, encaminhá-lo ou mantê-lo em acompanhamento médico concomitante, jamais substituindo a avaliação clínica por uma leitura exclusivamente psicodinâmica do sintoma. A articulação entre saber médico e saber psicanalítico, longe de configurar disputa de território, constitui condição necessária para um cuidado integral do sujeito que sofre.

 

3.4 Freud, Breuer e a descoberta da conversão histérica

A compreensão psicanalítica do corpo como espaço de expressão psíquica remonta à própria origem do método. Ao final do século XIX, Freud e Breuer (2016 [1893-1895]) analisaram casos de pacientes diagnosticadas com histeria, entre as quais a paciente conhecida como Anna O., que apresentavam paralisias, perda de fala e alterações de visão sem causa orgânica identificável. A escuta atenta desses casos revelou que, por trás de cada sintoma, havia conteúdo mnêmico que não encontrara outra via de expressão.

 

Dessa observação derivou o conceito de conversão: tensão psíquica que, impossibilitada de ser elaborada pela palavra, converte-se em sintoma corporal. A constatação de que as pacientes histéricas sofriam, sobretudo, de recordações não elaboradas tornou-se um dos postulados fundadores da psicanálise (FREUD; BREUER, 2016 [1893-1895]). Os autores observaram, ainda, que a verbalização de conteúdos até então silenciados promovia a transformação ou o desaparecimento dos sintomas, fenômeno que uma de suas pacientes nomeou cura pela fala, expressão que permanece em uso mais de um século depois. Tal achado não implica que toda manifestação física possua etiologia emocional, mas indica que, uma vez tratadas as causas orgânicas, pode subsistir uma pergunta legítima quanto ao sentido psíquico do sofrimento.

A relevância histórica desses estudos ultrapassa o interesse meramente descritivo: neles, Freud e Breuer (2016 [1893-1895]) estabeleceram um método de investigação fundado na escuta prolongada e na livre associação, procedimento que se tornaria posteriormente a técnica associativa da psicanálise. Esse método pressupõe que o próprio sujeito, e não o especialista, é quem detém, ainda que de modo inconsciente, o sentido de seu sofrimento, cabendo ao analista a função de sustentar as condições para que esse sentido possa emergir. Tal pressuposto permanece central em qualquer leitura psicanalítica contemporânea dos fenômenos psicossomáticos, incluindo as formulações posteriores de Winnicott, McDougall, Marty e Anzieu discutidas nas seções seguintes.

 

3.5 McDougall, Marty e a Escola Psicossomática de Paris

A reflexão psicanalítica sobre o corpo como espaço de expressão psíquica deve-se, em grande medida, à Escola Psicossomática de Paris, fundada pelo psicanalista Pierre Marty. Para Marty (1993), a psicossomática deriva da psicanálise, embora dela se diferencie quanto ao tipo de paciente e à técnica empregada, voltando-se a sujeitos cujo funcionamento psíquico apresenta insuficiências específicas na elaboração do sofrimento. Foi nesse contexto teórico que Joyce McDougall, formada na mesma tradição francesa, desenvolveu sua própria leitura do fenômeno psicossomático.

McDougall (2013) descreve o corpo como palco no qual se encenam conflitos psíquicos ainda não significados, imagem que confere título à sua obra mais conhecida, Teatros do corpo. A autora sustenta que todo sujeito possui, em maior ou menor grau, uma potencialidade psicossomática, entendida como recurso arcaico do psiquismo, acionado quando as vias habituais de elaboração, a saber, pensar, sentir e verbalizar, encontram-se bloqueadas. Tal potencialidade não constitui fraqueza de caráter, mas disposição estrutural que se manifesta em condições específicas de sobrecarga emocional.

Marty (1993) contribuiu, ainda, com o conceito de pensamento operatório, utilizado para descrever um modo de funcionamento psíquico marcado pela escassez de representações mentais e de vida fantasmática, no qual o sujeito relata fatos concretos com pouca elaboração afetiva.

 

Segundo o autor, esse tipo de funcionamento psíquico favorece a via corporal como principal, e por vezes única, forma de descarga de tensões que não encontram representação simbólica. Embora não constitua condição exclusiva de pacientes psicossomáticos, o pensamento operatório oferece parâmetro clínico relevante para a compreensão de quadros nos quais o sofrimento psíquico manifesta-se predominantemente pelo corpo.

 

3.6 Winnicott: a integração entre psique e soma

Donald Winnicott ofereceu contribuição decisiva para a compreensão da relação entre corpo e psiquismo ao propor que psique e soma não constituem instâncias separadas, mas dimensões de uma mesma experiência de existir. Ao descrever o cuidado inicial recebido pelo bebê, o autor refere-se a esse organismo como recém-criado psicossoma (WINNICOTT, 2000, p. 334), expressão que situa, já no início da vida, a indissociabilidade entre corpo e psiquismo.

 

Quando a elaboração psíquica de determinada vivência não se realiza, seja pela ausência de um ambiente capaz de conferir sentido ao que é sentido, o corpo passa a sustentar aquilo que a mente ainda não pôde pensar. Winnicott descreveu angústias que denominou impensáveis: experiências de tal magnitude que a mente não dispõe de recursos para transformá-las em pensamento, depositando-se, então, como tensão, mal-estar ou dor (WINNICOTT, 2000). Cabe ressaltar que essa integração não constitui conquista definitiva da infância, mas equilíbrio dinâmico, passível de fragilização diante de sobrecarga emocional ou de perdas significativas (WINNICOTT, 2000).

 

Central a essa formulação é o conceito winnicottiano de ambiente suficientemente bom, entendido como o conjunto de cuidados que possibilita ao sujeito, desde a primeira infância, sustentar experiências emocionais intensas sem que estas precisem ser evacuadas pela via corporal. Na ausência desse ambiente, o processo de holding, isto é, de sustentação psíquica do sujeito por parte de quem o cuida, torna-se insuficiente, e o corpo assume, em seu lugar, a função de conter aquilo que não encontrou continente adequado em outro registro. Essa formulação aproxima-se diretamente da noção de continente desenvolvida por Anzieu, discutida na seção seguinte.

 

3.7 Anzieu e a formação do envoltório psíquico

Didier Anzieu, ao desenvolver o conceito de eu-pele, propôs que, assim como a pele delimita o corpo em relação ao ambiente externo, existe um envoltório psíquico de função análoga, responsável por conter as experiências emocionais e possibilitar ao sujeito a sensação de habitar o próprio corpo. Quando esse envoltório encontra-se fragilizado, seja por abandono, invasão ou desamparo precoce, a fronteira entre interno e externo torna-se instável (ANZIEU, 1988).

Anzieu (1988, p. 41) descreve a fronteira psíquica saudável como uma interface que permite a distinção do de fora e do de dentro. Nas histórias em que essa interface não se consolidou adequadamente, observa-se sensação difusa de mal-estar e de não habitar plenamente a própria experiência. É frequente, nesses casos, que o corpo, por meio da pele, da respiração ou de outros registros somáticos, sinalize a necessidade de um limite que não se constituiu por outras vias (ANZIEU, 1988).

 

3.8 Transmissão geracional e o silêncio emocional

Parte considerável do que se manifesta no corpo, em fases posteriores da vida, tem origem em ambientes familiares nos quais não havia espaço legítimo para a expressão emocional. Em núcleos familiares nos quais a manifestação de dor é recebida com impaciência, e não com acolhimento, aprende-se precocemente que sentir constitui risco. O conteúdo que se aprende a silenciar não desaparece; perde apenas o acesso à palavra, permanecendo depositado no corpo (ANZIEU, 1988).

 

Tal dinâmica explica, em parte, a recorrência de sintomas semelhantes entre membros de uma mesma família ao longo de gerações, fenômeno que reproduz, no registro corporal, um silêncio emocional previamente herdado. O reconhecimento dessa transmissão não visa atribuir culpa, mas compreender que os responsáveis pelo cuidado também aprenderam, com quem os cuidou, a lidar com o próprio sofrimento da forma que lhes foi possível, nem sempre a mais adequada.

Do ponto de vista técnico, esse reconhecimento cumpre função relevante no processo terapêutico: ao situar o sintoma dentro de uma história que ultrapassa a biografia individual do sujeito, reduz-se o peso de julgamento moral frequentemente associado ao sofrimento psíquico, sobretudo quando este se expressa por vias corporais. Compreender a origem geracional de determinado padrão de silenciamento emocional não elimina, por si, o sintoma, mas devolve ao sujeito a possibilidade de posicionar-se ativamente diante de uma repetição até então inconsciente, condição frequentemente necessária para que a elaboração psíquica possa avançar.

 

3.9 A posição do analista: escuta, sustentação e enquadre

Um dos aspectos mais delicados da condução clínica reside no ajuste da escuta: presença suficiente para que o paciente não permaneça só diante do que o atormenta, e discrição suficiente para que ele próprio encontre, em seu tempo, as palavras que lhe são próprias. Interpretações precoces podem ser tão prejudiciais quanto a ausência de escuta (ANZIEU, 1988).

 

O trabalho analítico assemelha-se menos a um interrogatório e mais à construção paulatina de um espaço confiável, no qual conteúdos previamente sem permissão de existir possam emergir sem julgamento. Trata-se do que Anzieu (1988) denomina experiência de continente, espaço que permite ao corpo prescindir de sustentar sozinho aquilo que ainda não encontrou palavra. A regularidade dos encontros, mantida ao longo do tempo, cumpre função que ultrapassa a organização da agenda: oferece previsibilidade ausente, para muitos sujeitos, justamente nos momentos em que mais se fazia necessária.

 

Nesse processo, a atenção do analista às próprias reações diante do relato do paciente, fenômeno denominado contratransferência, constitui instrumento clínico relevante, particularmente diante de sintomas psicossomáticos, nos quais o sujeito frequentemente não dispõe de linguagem afetiva para descrever o que sente. McDougall (2013) observa que, nesses casos, cabe ao analista emprestar, provisoriamente, palavras e sentidos ao que o paciente apenas manifesta pelo corpo, função que deve ser exercida com cautela, de modo a não substituir a elaboração própria do sujeito por uma interpretação precoce ou exterior a sua experiência.

 

3.10 Do sintoma à narrativa: o processo clínico de nomeação

Na clínica psicanalítica, o objetivo não se restringe à eliminação de sintomas, mas estende-se à compreensão de sua história, de seu contexto e do lugar que ocupam na vida do sujeito. O sintoma deixa de figurar como adversário a ser combatido e passa a ser compreendido como mensagem a ser decifrada. Substitui-se a pergunta sobre quando o sintoma surgiu e sua intensidade pela investigação do que ocorria na vida do paciente no momento de seu aparecimento (FREUD; BREUER, 2016 [1893-1895]).

 

As sessões iniciais dedicam-se, com frequência, ao levantamento da história do sintoma, procedimento que, embora aparentemente apenas informativo, já integra o processo terapêutico: ao narrar a própria história para um interlocutor atento, o sujeito inicia a organização psíquica de conteúdos anteriormente dispersos como sensação difusa. Ao longo do tratamento, revelam-se conexões não evidentes no início do processo, tais como sintomas surgidos após perdas não elaboradas ou tensões que se intensificam diante de determinados temas familiares. Esse percurso não é linear; observam-se avanços e recuos, e o que se transforma, mais do que a intensidade do sintoma, é a relação do sujeito com ele (WINNICOTT, 2000).

 

Progressivamente, aquilo que antes se manifestava apenas pelo corpo adquire nome, história e significado: a dor passa a ser compreendida como angústia, categoria central nos estudos fundadores de Freud e Breuer (2016 [1893-1895]); o cansaço revela esgotamento emocional construído ao longo de anos de responsabilidade excessiva; e a ansiedade constante passa a integrar uma narrativa sobre medos, perdas e exigências até então sem lugar de expressão. A verbalização do sofrimento não elimina a dor de modo imediato, mas transforma o modo como o sujeito com ela se relaciona, tal como já indicavam Freud e Breuer (2016 [1893-1895]) ao descreverem os efeitos da cura pela fala.

Esse processo de nomeação, embora frequentemente associado a alívio subjetivo, não deve ser compreendido como objetivo terapêutico em si mesmo, mas como consequência de um trabalho mais amplo de elaboração psíquica. A insistência em nomear rapidamente o sofrimento, sem que o sujeito tenha efetivamente percorrido o processo associativo que confere sentido próprio a essa nomeação, corre o risco de reproduzir, no espaço clínico, a mesma lógica de urgência e resolução imediata característica da cultura de produtividade discutida na seção 3.2, o que reforçaria, paradoxalmente, o próprio padrão de funcionamento psíquico que se pretende transformar.

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Este ensaio buscou demonstrar, a partir da articulação entre autores fundadores e contemporâneos da psicanálise, que o sintoma corporal desprovido de causa orgânica identificável pode ser compreendido como forma de comunicação psíquica. A conversão histérica descrita por Freud e Breuer (2016 [1893-1895]), a potencialidade psicossomática de McDougall (2013), fundamentada na tradição inaugurada por Marty (1993), a integração entre psique e soma proposta por Winnicott (2000), a teoria do envoltório psíquico de Anzieu (1988) e a psicodinâmica do trabalho de Dejours (2015) constituem, em conjunto, um arcabouço teórico consistente para a compreensão clínica desse fenômeno.

 

A escuta desses sintomas não substitui, em nenhuma hipótese, a avaliação e o acompanhamento médico, que permanecem etapa indispensável e anterior a qualquer leitura de natureza psíquica. Constitui, antes, uma camada complementar de cuidado, voltada à compreensão da história e do contexto de vida do sujeito. Reconhecer o corpo como via legítima de comunicação psíquica, e não apenas como objeto de intervenção biomédica, representa contribuição relevante da psicanálise à prática clínica contemporânea, sobretudo em um contexto cultural que associa produtividade a valor pessoal e silêncio emocional a autossuficiência (DEJOURS, 2015).

 

Como limitação inerente ao próprio desenho deste trabalho, destaca-se seu caráter exclusivamente teórico e bibliográfico: as articulações propostas não foram submetidas a verificação empírica, tampouco a validação por meio de estudo de caso sistemático. A generalização das formulações aqui discutidas para contextos clínicos específicos deve, portanto, ser realizada com cautela, considerando-se as particularidades de cada história de vida e de cada quadro sintomático.

Como desdobramento deste ensaio, sugere-se a realização de pesquisas empíricas que investiguem, em contextos clínicos específicos, a articulação entre sintomas psicossomáticos e histórias de vida, de modo a ampliar e testar, para além do plano teórico aqui desenvolvido, a hipótese central sustentada neste trabalho.

 

REFERÊNCIAS

ANZIEU, Didier. O eu-pele. Tradução de Zakie Yazigi Rizkallah e Rosaly Mahfuz. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1988.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2015.

FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Tradução de Laura Barreto e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. (Obras completas, v. 2).

MARTY, Pierre. A psicossomática do adulto. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. Tradução de Pedro Henrique Bernardes Rondon. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

WINNICOTT, Donald W. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Tradução de Davy Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

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