
TDAH: Uma Breve Retrospectiva Histórica
Como começa a construção do diagnóstico de TDAH?
Quando falamos em TDAH hoje, geralmente pensamos em comportamentos como impulsividade, desatenção e hiperatividade. A imagem mais comum é a de um indivíduo inquieto, emocionalmente intenso e com dificuldade em seguir padrões de comportamento esperados socialmente. Porém, a construção histórica do que hoje entendemos como TDAH começou muito antes da criação oficial do diagnóstico.
Potencialmente, essa construção começa há cerca de 170 anos, dentro da literatura europeia. Um exemplo frequentemente citado é “The Story of Fidgety Philip”, do Dr. Heinrich Hoffmann. A história retrata um garoto inquieto, que passava grande parte do tempo mexendo o corpo, apresentando comportamentos repetitivos e envolvendo-se constantemente em situações problemáticas devido ao seu comportamento.
Durante o século XIX, comportamentos disruptivos — como falta de controle dos impulsos e das emoções, além da dificuldade de adaptação às normas sociais da época — eram vistos principalmente sob uma perspectiva moral. O debate girava em torno da seguinte questão: o que fazer com essas crianças consideradas “atentadas”? Como fazê-las se adaptar ao sistema normativo vigente?
O TDAH antes do TDAH
Em 1900, ainda não existia a ideia de TDAH como conhecemos hoje. O que existia era a noção de indivíduos com “desvios morais” ou comportamentos inadequados ao padrão esperado socialmente.
Em 1919, durante a epidemia de influenza, algumas pesquisas sugeriram que pessoas que sobreviveram à doença apresentavam sinais de encefalite e comportamentos semelhantes aos atualmente associados ao TDAH. Isso levou cientistas da época a acreditarem que o transtorno estaria relacionado a deformidades cerebrais, especialmente na região do lobo frontal — hipótese que hoje se mostra sem fundamentos científicos consistentes.
A partir disso, o TDAH passou a ser associado à ideia de dano cerebral.
O início da medicalização
Em 1936, o medicamento Benzedrine foi aprovado e começou a ser administrado em estudantes que demonstravam dificuldades escolares. Observou-se melhora no desempenho acadêmico desses indivíduos, o que contribuiu para o avanço do uso de estimulantes em contextos relacionados ao comportamento e à atenção.
Na década de 1930, também foram realizados estudos com macacos, nos quais médicos provocavam danos no lobo frontal dos animais. Após isso, os macacos apresentavam comportamentos considerados semelhantes aos descritivos do TDAH. Hoje, essas pesquisas são vistas como metodologicamente frágeis e cientificamente irrelevantes.
A entrada do TDAH nos manuais diagnósticos
Em 1952, foi lançado o primeiro DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), mas ainda não existia uma classificação específica para TDAH.
Somente em 1968 aparece a primeira menção ao transtorno, inicialmente chamado de síndrome hipercinética, termo que sugeria uma pessoa excessivamente agitada.
A Ritalina foi introduzida em 1955 como um estimulante utilizado no tratamento dos sintomas relacionados ao TDAH.
Já em 1980, no DSM-III, a definição mudou para:
- Transtorno de Déficit de Atenção com hiperatividade (TDAH)
- Transtorno de Déficit de Atenção sem hiperatividade (TDA)
Em 1987, os subtipos foram unificados, consolidando o diagnóstico sob o nome:
TDAH — Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
O reconhecimento do TDAH em adultos
Apenas na década de 1990 foi reconhecido que adultos também poderiam receber o diagnóstico de TDAH. Antes disso, acreditava-se que apenas crianças poderiam ser diagnosticadas.
Essa compreensão mudou à medida que se observou que muitos sintomas tendem a se mascarar ao longo do desenvolvimento, especialmente através de mecanismos de adaptação e estratégias construídas naturalmente durante o amadurecimento da pessoa.
Isso não significa necessariamente que o TDAH desapareça na vida adulta, mas sim que muitos indivíduos desenvolvem formas de manejar e controlar parte dos sintomas no cotidiano. Em muitos casos, os sintomas não somem completamente, porém podem se manifestar de maneiras diferentes e menos visíveis socialmente.
A popularização do diagnóstico
Durante a década de 1990, o diagnóstico de TDAH ganhou enorme visibilidade e popularidade por diferentes motivos.
Entre eles:
- O diagnóstico passou a ter critérios mais bem estruturados, facilitando sua aplicação clínica;
- Houve aumento da pressão escolar por comportamentos normativos e desempenho;
- Cresceu a pressão social sobre pais e filhos em relação à produtividade e rendimento;
- E também houve forte interesse da indústria farmacêutica na expansão do uso de medicamentos estimulantes.
Considerações finais
A história do TDAH mostra que a compreensão sobre comportamento, atenção e impulsividade mudou profundamente ao longo do tempo. O que antes era entendido como questão moral, depois foi associado a danos cerebrais e, posteriormente, estruturado como categoria diagnóstica psiquiátrica.
Entender essa trajetória histórica não significa negar o sofrimento real de indivíduos diagnosticados, mas sim refletir sobre como conceitos psicológicos e psiquiátricos são construídos social, histórica e culturalmente ao longo das décadas.





